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Deus
e o Estado - Apresentação
Carlo
Cafiero e Elisée Reclus
Esta
apresentação foi escrita como advertência
para a primeira edição desta obra, em 1882, por
Carlo Cafiero e Elisée Reclus.
A
vida de Mikhail Bakunin já é suficientemente conhecida
em seus traços gerais. Amigos e inimigos sabem que este
homem foi grande no intelecto, na vontade, na energia perseverante;
sabem que grau de desprezo ele ressentia pela fortuna, pela posição
social, pela glória, todas estas misérias que a
maioria dos humanos têm a baixeza de ambicionar. Fidalgo
russo, aparentado da mais alta nobreza do império, entrou,
um dos primeiros, nesta orgulhosa associação de
revoltados que souberam se libertar das tradições,
dos preconceitos, dos interesses de raça e de classe, e
desprezar seu bem-estar. Com eles enfrentou a dura batalha da
vida, agravada pela prisão, pelo exílio, por todos
os perigos e todas as amarguras que os homens devotados sofrem
em sua existência atormentada.
Uma
simples pedra e um nome marcam no cemitério de Berna o
lugar onde foi depositado o corpo de Bakunin. E, talvez, muito
para honrar a memória de um lutador que tinha as vaidades
deste gênero em tão medíocre estima! Seus
amigos não farão construir para ele, certamente,
nem faustosos túmulos nem estátua. Sabem com que
amplo riso ele os teria acolhido se lhe tivessem falado de um
jazigo edificado em sua glória. Sabem também que
a verdadeira maneira de honrar seus mortos é continuar
sua obra - com o ardor e a perseverança que eles próprios
dedicam a ela. Certamente que esta é uma tarefa difícil,
que demanda todos os nossos esforços, pois, entre os revolucionários
da geração que passa, não há sequer
um que tenha trabalhado com mais fervor pela causa comum da Revolução.
Na
Rússia, entre os estudantes, na Alemanha, entre os insurretos
de Dresden, na Sibéria, entre seus irmãos de exílio,
na América, na Inglaterra, na França, na Suíça,
na Itália, entre todos os homens de boa vontade, sua influência
direta foi considerável. A originalidade de suas idéias,
sua eloquência figurada e veemente, seu zelo infatigável
na propaganda, ajudados, por sinal, pela majestade natural de
sua aparência e por uma vitalidade possante, abriram a Bakunin
o acesso a todos os grupos revolucionários socialistas,
e sua ação deixou em todos os lugares marcas profundas,
mesmo entre aqueles que, após o acolherem, o rejeitaram
por causa da diferença de objetivo ou de método.
Sua correspondência era das mais extensas; passava noites
inteiras redigindo longas epístolas a seus amigos do mundo
revolucionário, e algumas destas cartas, destinadas a fortalecer
os tímidos, a despertar os adormecidos, a traçar
planos de propaganda ou de revolta, tomaram as proporções
de verdadeiros volumes. São estas cartas que explicam sobretudo
a prodigiosa ação de Bakunin no movimento revolucionário
do século.
As
brochuras por ele publicadas, em russo, em francês, em italiano,
por mais importantes que sejam, e por mais úteis que tenham
sido para disseminar as novas idéias, são a parte
mais fraca da obra de Bakunin.
O
texto que publicamos hoje, Deus e o Estado, não é
outra coisa, na realidade, senão um fragmento de carta
ou de relatório. Composto da mesma maneira que a maioria
dos outros escritos de Bakunin, possui o mesmo defeito literário,
a falta de proporções; além disso, é
bruscamente interrompido: todas as buscas por nós realizadas
para encontrar o final do manuscrito foram em vão. Bakunin
nunca tinha o tempo necessário para concluir todos os trabalhos
empreendidos. Obras eram começadas sem que outras tivessem
sido terminadas. "Minha própria vida é um fragmento",
dizia àqueles que criticavam seus escritos. Entretanto,
os leitores de Deus e o Estado certamente não lamentarão
que o texto de Bakunin, ainda que incompleto, tenha sido publicado.
Nele, as questões aparecem tratadas com um singular vigor
de argumentação e de uma maneira decisiva. Ao se
dirigir, com justa razão, aos adversários de boa
fé, Bakunin lhes demonstra a inanidade de sua crença
nesta autoridade divina sobre a qual foram fundamentadas todas
as autoridades temporais; ele lhes prova a gênese puramente
humana de todos os governos; enfim, sem deter-se naquelas origens
do Estado que já estão condenadas pela moral pública,
tais como a superioridade física, a violência, a
nobreza, a fortuna, ele faz justiça à teoria que
daria à ciência o governo das sociedades. Mesmo supondo
que fosse possível reconhecer, no conflito das ambições
rivais e das intrigas, os pretensos e os verdadeiros homens de
ciência, e que se encontrasse um modo de eleição
que fizesse esgotar infalivelmente o poderio daqueles cujo saber
é autêntico, que garantia de sabedoria e de probidade
em seu governo poderiam eles nos oferecer? De antemão,
não poderíamos, ao contrário, prever entre
estes novos senhores as mesmas loucuras e os mesmos crimes que
entre os senhores de outrora e os do tempo presente? Inicialmente,
a ciência não é: ela se faz. O homem de ciência
do dia nada mais é que o ignorante do dia seguinte. Basta
que ele pense ter chegado ao fim para, por isso mesmo, cair abaixo
da criança que acaba de nascer. Mas, tendo reconhecido
a verdade em sua essência, não pode deixar de se
corromper pelo privilégio e corromper outros pelo comando.
Para assentar seu governo, ele deverá, como todos os chefes
de Estado, tentar parar a vida nas massas que se agitam abaixo
dele, mantê-las na ignorância para assegurar a calma,
enfraquecê-los pouco a pouco para dominá-los de uma
altura maior.
De
resto, desde que os "doutrinários" apareceram,
o "gênio" verdadeiro ou pretenso tenta tomar o
cetro do mundo, e sabemos o que isto nos custou. Nós vimos
esses homens de ciência em ação, tanto mais
insensíveis quanto mais estudaram, tanto menos amplos em
suas idéias quanto mais tempo passaram a examinar algum
fato isolado sob todas as suas faces, sem nenhuma experiência
de vida, porque durante muito tempo não tiveram outro horizonte
senão as paredes de seu queijo, pueris em suas paixões
e vaidades, por não terem sabido tomar parte nas lutas
sérias, e nunca aprenderam a justa proporção
das coisas. Não vimos, recentemente, fundar-se uma escola
de "pensadores", por sinal vulgares bajuladores e pessoas
de vida sórdida, que fizeram toda uma cosmogonia para seu
uso particular? Segundo eles, os mundos não foram criados,
as sociedades não se desenvolveram, as revoluções
não transformaram os povos, os impérios não
desmoronaram, a miséria, a doença e a morte não
foram as rainhas da humanidade senão para fazer surgir
uma elite de acadêmicos, flor desabrochada, da qual todos
os outros homens nada mais são senão seu estrume.
E a fim de que esses redatores do Temps e dos Débats tenham
o lazer de "pensar" que as nações vivem
e morrem na ignorância; os outros humanos são consagrados
à morte a fim de que estes senhores tornem-se imortais!
Mas
podemos nos tranqüilizar: esses acadêmicos não
terão a audácia de Alexandre, cortando com sua espada
o nó górdio; eles não erguerão o gládio
de Carlos Magno. O governo pela ciência torna-se tão
impossível quanto o do direito divino, o do dinheiro ou
da força brutal. Todos os poderes são, doravante,
submetidos a uma crítica implacável. Homens nos
quais nasceu o sentimento de igualdade não se deixam mais
governar, aprendem a governar a eles mesmos. Precipitando do alto
dos céus aquele do qual todo poder era suposto descer,
as sociedades derrubam também todos aqueles que reinavam
em seu nome. Tal é a revolução que se realiza.
Os Estados se deslocam para dar lugar a uma nova ordem, na qual,
assim como Bakunin gostava de dizer, "a justiça humana
substituirá a justiça divina". Se é
permitido citar um nome entre os revolucionários que colaboraram
neste imenso trabalho de renovação, não há
nenhum que possamos assinalar com mais justiça do que o
de Mikhail Bakunin.
Carlo
Cafiero, Elisée Reclus
Genebra, 1882.
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