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Trabalho e Pão
para Todos
Durante os muitos séculos de exploração do
homem pelo homem, o produtor de toda a riqueza viveu com apenas
o mínimo indispensável para continuar a existir. Com
o desenvolvimento da educação e da cultura popular,
o slogan "só come quem trabalha" emergiu enquanto
expressão de justiça e de liberdade. Todo o desenvolvimento
económico e social que não tenha esta máxima
por sua base e ideal não passa de uma nova forma de logro,
uma nova sabotagem da acção revolucionária.
Para nós, a realização desta fórmula
é primordial. Todos aqueles que acreditam que os seres humanos
têm que trabalhar para viver formam efectivamente um partido,
e devem apresentar uma única frente de acção.
Vamos
explicar o nosso conceito de trabalho: Adam Smith considerou que
só o chamado trabalho manual era produtivo. Mas o processo
de trabalho é a combinação de forças
físicas e intelectuais que, no caso do artesão, podem
ser expressadas num único indivíduo mas que, na economia
moderna, manifestam-se sob a forma de uma coordenação
de funções altamente especializadas. Não há
nenhuma razão para se afirmar que o engenheiro, o empregado
de escritório, e o capataz da oficina, não fizeram
qualquer trabalho produtivo e que só os trabalhadores manuais
que fizeram o produto é que devem ser tidos em conta."
[1]
Na sociedade moderna, o trabalho é uma conjunção
de forças técnicas e manuais, ainda mais quando o
técnico pode reduzir as forças físicas e transferir
à máquina o extenuante trabalho humano.
O
cientista, no seu laboratório ou na sala de conferências,
o técnico e o trabalhador, são todos forças
de trabalho socialmente úteis e necessárias. Mas virá
alguém falar-nos do que produzem os capitalistas, proprietários,
accionistas e intermediários do sistema capitalista? O “trabalho”
desses elementos é, nas palavras de Proudhon, "Uma ficção
de antigos direitos feudais que passaram para a economia política
moderna, e que constituem um presente quase grátis do trabalhador
ao capitalista especulador – o último vestígio
da exploração do homem pelo homem...na verdade, só
o trabalho físico e intelectual é produtivo."
Não
como um socialista Proudhoniano, mas simplesmente enquanto sincero
devoto da verdade, German Bernacer, um autor espanhol, defende no
seu livro, "O Juro do Capital", que a única fonte
de rendimentos devia ser o trabalho produtivo. O juro do capital
pode ser eliminado até mesmo num regime de produção
individual. Esta ideia é parecida com as concepções
modernas dos tecnocratas americanos.
Nós queremos algo de semelhante: a supressão de todos
os rendimentos ilegítimos, ou seja, daqueles que não
são fruto do trabalho físico ou intelectual, não
tendo qualquer utilidade social. Isto requer uma profunda transformação
económica. Queremos colocar no centro da actividade económica,
não a especulação e o lucro, mas o trabalho
e a produção, para o bem-estar de todos.
A
natureza impõe que os seres humanos trabalhem para sobreviver.
Temos que produzir cereais, cultivar plantas para obter fibras têxteis,
extrair combustíveis e metais das entranhas da terra, e fabricar
ferramentas e aparelhos para suprir ás necessidades crescente
de uma população sempre em crescimento.
Apenas
há alguns anos atrás, um automóvel era uma
raridade que provocava a surpresa e a inveja das pessoas. Hoje em
dia, é quase um veículo proletário, indispensável
como necessidade diária e, como tal, devia estar dentro do
alcance de todos os habitantes de um país. Não queremos
privar-nos das conveniências que a técnica moderna
pôs ao nosso dispor. Muito pelo contrário: nós
queremos, se possível, aumentar ou multiplicar essas conveniências,
e não duvidamos de que isso seja possível. Se sob
o capitalismo foram possíveis tantas maravilhas, mais isso
prova que o que ainda pode vir a ser alcançado num regime
de socialização e liberdade. "Só no ar
puro da liberdade pode avançar o gigantesco voo do progresso
técnico." (H. Deitzel.)
É
preciso trabalhar para conservar e aumentar os benefícios
de civilização, multiplicar a produtividade da terra,
e reduzir a brutalidade do trabalho físico. Mas ninguém
disse que só uma categoria de pessoas, as tradicionalmente
escravizadas, os proletários, devem ficar incumbidas de trabalhar.
Nenhum pedagogo continua a manter os velhos princípios de
classe ou casta. Noutros tempos, foi preciso que se proclamassem
leis para declarar a actividade do alfaiate ou o sapateiro como
algo de não degradante. Agora, o nosso objectivo é
tornar degradantes a inactividade e o parasitismo.
Hoje em dia, metade da Espanha veste-se andrajosamente e só
tem por comida um pedaço de pão escuro; para metade
de Espanha, a fruta, nesta terra de frutas, é um luxo; metade
dos habitantes das cidades mora em barracas, e nos campos, em cavernas
e choupanas. Mas este é um lugar comum, de tal forma corrente,
que uma pessoa é levada a pensar que foi instituído
por ordem divina, e diz, com fatalismo maometano: “sempre
houve pobres e ricos, e esta condição sempre terá
que prevalecer."
Sob
o capitalismo, não há nada de invulgar neste estado
de coisas, uma vez que o capital é incapaz de fazer uso de
todos os recursos da natureza, da ciência e do trabalho humano.
Metade de Espanha veste-se com farrapos, enquanto que os trabalhadores
da indústria têxtil não conseguem encontrar
ninguém que empregue a sua habilidade e competência,
as fábricas fecham, e a maquinaria enferruja.
Numa
economia socializada, este espectáculo seria impossível,
uma vez que a produção não seria destinada
a suprir ás necessidades de um mercado desligado das reais
necessidades humanas, mas sim para as satisfazer, e enquanto que
um único espanhol não tiver roupa suficiente, não
vai haver nenhum motivo para fechar uma única fábrica
têxtil ou mandar parar um único trabalhador.
O
mesmo pode ser dito em relação a qualquer outra indústria.
A construção civil não trabalha nem a 40% das
suas reais capacidades. O desemprego vai entregando lentamente á
tuberculose um grande número destes trabalhadores, enquanto
metade da população espanhola vive em condições
frequentemente inferiores ás de animais.
Mas
o capitalismo não é capaz de resolver estes problemas.
Os capitalistas só se interessam em usar uma parte infinitésima
dos recursos sociais, do trabalho humano, das invenções
técnicas, das descobertas científicas e das forças
naturais, porque o capitalismo só se interessa pelo lucro.
Ele não responde às reais necessidades do nosso padrão
de cultura e, por conseguinte, é um obstáculo para
o progresso e até mesmo para a própria manutenção
da vida.
Para
obtermos o máximo de bem-estar de que a nossa sociedade é
capaz, só precisamos de suprimir o parasitismo, organizando
a vida de uma tal forma que, quem não trabalhar, não
consiga encontrar nenhuma forma de viver através da exploração
do trabalho dos outros. Naturalmente que as crianças, os
velhos e os doentes não são considerados como parasitas.
As crianças vão ser produtivas quando crescerem. Os
velhos já fizeram a contribuição deles para
a riqueza social e o doente só é temporariamente improdutivo.
[O autor esqueceu-se desse caso, mas naturalmente que uma pessoa
deficiente também não vai ser considerada como um
parasita – NDT]
Sob uma economia socializada, contando só com os adultos
em idade de trabalhar, a força de trabalho humano disponível
seria, pelo menos, duplicada. É fácil de perceber
o que esta força de trabalho extra significa, tanto no que
diz respeito á diminuição do tempo de trabalho
de cada um, como no aumento de riqueza que pode proporcionar. Além
disso, uma economia socializada é um regime de liberdade
para os técnicos e os cientistas, um livre acesso ao trabalho
em todas as áreas. Do ponto de vista moral, a socialização,
impondo o princípio de que "quem não trabalha
não come", dará um impulso de desenvolvimento
ilimitado á vida do povo, uma vez que o trabalho e a inteligência
não serão tolhidos por barreiras artificiais e serão
finalmente capazes de transformar num facto o velho sonho de um
paraíso na terra.
Nós somos guiados pela visão de uma sociedade de produtores
e de distribuidores livres, na qual não exista nenhum poder
capaz de tirar-lhes a posse dos meios de produção.
No caso russo, o Estado retirou ás associações
de trabalhadores e camponeses a capacidade de decisão em
tudo o que diz respeito ao controlo dos instrumentos de trabalho,
produção e distribuição. Na Rússia,
os produtores limitaram-se a mudar de amos. Eles nem sequer são
donos dos meios de produção ou dos bens que produzem
e o assalariado, que é sujeito a tantas ou mais desigualdades
quantas as que existem na sociedade capitalista, vive sob um regime
económico de dependência, servidão e escravidão.
Pode
ser dito que, de um ponto de vista social, na forma de organização
económica que nós propomos, os consumidores, enquanto
tal, têm um papel pequeno, se algum, já que não
existe nenhuma organização criada com o propósito
de os representar. Sem dúvida que o homem não é
apenas um produtor mas também um consumidor, um ser social
que, fora da fábrica e da oficina, também tem afinidades
culturais, aspirações sociais, e ideias políticas
e religiosas. Essas correntes de opinião têm que criar
os seus próprios órgãos de expressão
e de influência social através da imprensa, de reuniões,
e de outros métodos aos quais a livre iniciativa pode ter
inteiro acesso e possibilidade de se concretizar. Esse é
um aspecto no qual não vamos entrar agora, e também
não vamos agora aprofundar os aspectos relativos á
defesa da Revolução. Em termos concretos, queremos
realçar uma tendência geral do mecanismo económico
que já se encontra latente nos sindicatos modernos e nas
quase instintivas tendências populares.
Os
sovietes foram um facto antes de se terem tornado numa teoria e,
como um primeiro passo na Revolução, preocupa-nos
sobretudo a tomada de toda estrutura económica e sua administração
directa pelos produtores, de forma a assegurar a satisfação
das necessidades fundamentais do povo.
Tudo
o resto pode ser resolvido mais tarde de forma espontânea,
tratando-se sobretudo de questões de opinião pessoal,
que o interesse comum e as necessidades políticas tratarão
de resolver.
[l] Kleinwaechter: Economia política, Páginas 100-101.
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