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Uma Sociedade de Produtores e Consumidores

 

A ideia da supressão do parasitismo económico político está, ou devia estar, suficientemente madura na mente do povo, para ser concretizada imediatamente. Quem trabalha não pode ficar muito contente enquanto vê a maior parte da sua produção a ser-lhe retirada e, se não fosse pelas forças armadas do Estado, certamente que o slogan de justiça, "quem não trabalha não come", seria imediatamente posto em prática. Os trabalhadores das fábricas e dos campos ainda vivem sujeitos a um regime de opressão e servidão. A única diferença entre os servos e os assalariados modernos é que os últimos têm a liberdade de escolher os seus amos, uma liberdade bastante relativa, para dizer o menos.

Dos dez milhões de pessoas capazes de trabalhar que existem em Espanha, só cerca de 4 milhões e meio a 5 milhões é que estão de facto a ser empregues na realização de trabalho produtivo. A Revolução vai suprimir este parasitismo e, só por isso, a sua missão fica justificada. Com o desaparecimento do parasitismo económico, vamos acabar com a existência da abundância ao lado da privação, com a ostentação do grande luxo ao lado da penúria. Os produtos que não existam em quantidades suficientes para satisfazer as necessidades de todos vão ser racionados, cabendo a cada um uma parte igual. O vestuário, a habitação e a educação serão pensados com base no interesse comum. Pela primeira vez na história do mundo, não vão existir quaisquer cérebros ou músculos em greve forçada.

Acreditamos que não vai haver nenhuma resistência real ao trabalho, até mesmo por parte dos ricos indolentes. Vamos ter sim as naturais dificuldades iniciais relativas a particionar adequadamente, em termos de ofícios e indústrias, uma população grande. A maior dificuldade será, contudo, um eventual bloqueio internacional.

Temos falta de algodão em Espanha e, sem esta matéria-prima, cerca de 200.000 trabalhadores ficarão sem emprego. Sem petróleo, os transportes serão seriamente afectados. Temos até falta de papel, e a escassez do mesmo resultará no desemprego de milhares de impressores, jornalistas e escritores. Portanto, a Revolução tem que se preocupar em, desde o princípio, assegurar o fornecimento de algodão e resolver o problema da falta de petróleo, sintetizando-o através da destilação de carvões minerais. Não há dificuldades técnicas que ciência não consiga resolver, e, como a Revolução não rebaixar o padrão de vida social mas, pelo contrário, aumentar o bem-estar de todos, ela tem que produzir artigos suficientes para suprir ás necessidades de todos. Claro que esses problemas serão menos urgentes se não houver nenhum bloqueio internacional, e a Espanha será então capaz de obter o petróleo da Rússia e o algodão da América, em troca de cobre e minério de ferro.

De todo o minério extraída nas minas, só uma parte muito pequena é que é refinada na Espanha. A maior parte é exportada, e volta à Espanha sob a forma de maquinaria, instrumentos, etc. A Revolução tem que criar uma verdadeira indústria metalúrgica nacional, aumentar o número de fundições e fábricas, e mecanizar a produção. Ela tem que electrificar as vias-férreas e as fábricas, utilizar os recursos hídricos para irrigação e electricidade, replantar florestas e preparar novos terrenos para a agricultura. Numa palavra, a Revolução tem que conseguir concretizar em poucos anos o que capitalismo já não consegue criar: uma Espanha capaz de alimentar, vestir e alimentar uma população que já não vai levar muito tempo até os 30.000.000 de habitantes. [1]

Não precisamos de um mandamento divino para construir a nossa sociedade de trabalhadores. Nem tão-pouco precisamos da hipótese de um Estado. Não pretendemos que todos dancem a mesma música, e até admitimos a existência de organismos diferentes, alguns mais revolucionários e outros menos, alguns mais amigáveis à nova situação e outros menos. O importante é que todos os espanhóis têm um mínimo de necessidades que têm que ser satisfeitas, e que devemos contribuir para isso por meio do nosso trabalho. Da mesma forma que hoje trabalhamos com pessoas que têm ideias politicas diferentes das nossas, e as vemos como bons companheiros de trabalho, vamos estar amanhã ombro a ombro com pessoas que não vão pensar como nós, e que até podem mesmo ser hostis á nossa ideologia. A essas, devemos conquista-las por meio do exemplo do nosso trabalho e da eficácia dos nossos planos. Existem diversas organizações de trabalhadores em Espanha. Todas devem contribuir para a reconstrução económica da sociedade, e a todas deve ser dado um lugar. A esse respeito, a Revolução não rejeita nenhuma contribuição.

Depois, fora da distribuição equitativa da produção – o trabalho de todos e para todos, cada um pode adoptar a forma de vida que mais lhe agradar. Nem sequer vamos negar direito á fé religiosa àqueles que desejarem praticá-la. Não vamos negar a expressão de outros conceitos sociais, nem a sua defesa e prática, sempre com a condição de que eles não sejam agressivos para connosco, e que também nos respeitem. Caso contrário, vamos ter hostilidade e guerra civil.

Podemos até prever que os amigos do sistema russo instituam as suas próprias experiências, e que os políticos socialistas tenham o parlamento deles para continuar a fazer discursos. Não vamos ser minimamente afectados por isso, e contentar-nos-emos em prevenir qualquer agressão manifesta de uma facção á outra, e em manter o aparelho produtivo e distributivo nas mãos dos próprios produtores e distribuidores.

Por outras palavras, desejamos liberdade absoluta na ordem política das coisas e, na ordem económica, pretendemos a coordenação de todas as forças produtivas. Que objecção pode ser feita a uma sociedade organizada desta forma? Acreditamos que uma Revolução como esta não prejudicaria ninguém e beneficiaria a todos. Que importa se aqueles que agora desfrutam de muitos privilégios tiverem que prescindir deles e aprender o que custa ganhar o seu próprio pão? Para esses, a mudança será benéfica, tanto em termos morais como físicos. Mas a classe média e o proletariado não têm nada a perder e têm um mundo inteiro a ganhar em termos de cooperação produtiva fraternal, graças à qual todos poderão obter um padrão de vida seguro. Não existirão preocupações com o amanhã, e desaparecerão os infindáveis casos de tragédias pessoais, em que aqueles que ontem desfrutavam de um relativo conforto estão hoje mergulhados numa miséria absoluta. Com a Revolução, tudo isso irá desaparecer, porque o trabalho estará sempre disponível para todos, não tendo outro objectivo além da satisfação das necessidades sociais.

As pessoas tímidas supõem que a Revolução é inspirada por ideias de vingança. Estão enganadas. Pelo contrário, é mais de se temer que uma Revolução triunfante possa pecar por excesso de generosidade. Os trabalhadores espanhóis não são vingativos. Muito pelo contrário, no dia em que tomarem posse da riqueza social, eles esquecerão imediatamente o seu longo calvário.

Não precisamos de ter ilusões sobre os homens e mulheres que vivem hoje na indolência. Será necessário adaptar essa geração de parasitas para executar as tarefas menos importantes. Por outro lado, vários industriais pequenos, e até mesmo alguns capitalistas que começaram como trabalhadores, vão ter assegurado um lugar importante enquanto técnicos e peritos nos seus respectivos ramos de actividade. Eles não serão chefes, mas sim elementos indispensáveis da nova estrutura social, e assim poderão desenvolver muito mais livremente e muito mais completamente toda a sua capacidade de empreendimento e de criar planos para melhorias que beneficiem a todos.

Nós podíamos analisar todas as categorias sociais e demonstrar que ninguém deve ter medo da inevitável mudança social. Não existirá nenhuma pequena aristocracia, não existirão pessoas a rebentar de riqueza excessiva, doentes com a gota e enfadadas por um viver doentio. Em Espanha, existem menos de 100.000 casas que vão sentir a sua situação rebaixada pelo processo revolucionário. Nós estamos a falar das 100.000 pessoas cuja riqueza está protegida contra todo o risco de se esgotar. Por outro lado, para os outros 23 ou 24 milhões de espanhóis, a Revolução será vista como uma libertação e trará um padrão de vida incomparavelmente superior àquele que eles conheceram sob o capitalismo.

[1] Lucas MaDada escreveu "Os trabalhadores espanhóis, em relação aos trabalhadores do resto da Europa da mesma condição social, estão mais mal vestidos, mais mal alimentados e habitam em piores condições."

 


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