Iniquidades
Sociais e Económicas
O que observamos na estrutura social dirigida pelo capitalismo?
Um aparato formidável, desenvolvido a um grau de possibilidades
inimagináveis pela ciência e pela técnica, incapaz
de funcionar devido às contradições inerentes
a um sistema de especulação, cujo poder produtivo
depende dos mercados e não do consumo.
Cada
trabalhador americano tem à sua disposição
3.000 escravos energéticos sob a forma de 300 cavalo-vapor
mecânicos. Poderia um magnata dos tempos da Antiga Grécia,
Roma ou Egipto ter sonhado em ter tanta potência à
sua disposição? Noutros países, o desenvolvimento
técnico é menor mas, não obstante, todos os
produtores modernos podem utilizar uma grande quantidade de potência
mecânica, que ainda pode ser enormemente ampliada.
Nós
perguntamos a nós mesmos: terá o bem-estar humano
beneficiado com isto? Existirá alguma justificação
para continuemos a viver assim, quando podemos viver muito melhor?
Em 1930, a produção de aço dos Estados Unidos
era 509 vezes inferior ao máximo anterior. O mesmo aconteceu
na Inglaterra, na Alemanha, e na França, onde a produção
foi reduzida para apenas 33%. A descida não parou, e o comércio
mundial mostra igualmente uma queda enorme. Nalgumas indústrias,
cerca de 70% a 80% dos trabalhadores encontram-se desempregados.
Os
países agrícolas têm que ver os seus cereais
a apodrecer nos campos ou a serem amontoados nos armazéns
por falta de compradores, enquanto que os centros industriais estão
atulhados com mercadorias que ninguém compra e o desemprego
aumenta constantemente. Nos países industrializados da Europa
e da América, existem mais de 50.000.000 de trabalhadores
desempregados e, não importa que projectos públicos
possam ser iniciados por governos crescentemente endividados, que
a situação destes desempregados não pode melhorar
sob o regime vigente.
A
sociedade actual, que permite a existência de uma capacidade
de produção gigantesca ao lado de uma pobreza igualmente
extraordinária, não pode ter nenhum defensor. Só
existe segurança económica para uns poucos, e, se
não encontramos mais militantes opostos a uma organização
social que nos degrada e arruína, a razão será
achada na letargia das massas.
Vamos
examinar o caso da Alemanha. Dos seus 65 milhões de habitantes,
32.5% são considerados como produtivos. Deste número,
29 milhões de trabalhadores ganham menos de 200 Marcos por
mês. F. Fried, no seu livro "O Fim de Capitalismo",
conta-nos que " de 29 milhões e meio de trabalhadores,
16 milhões ganham menos de 100 Marcos por mês, 6 milhões
ganham entre 100 e 125, e 7 milhões e meio ganham entre 125
e 200 Marcos. Isto significa que metade da população
produtiva da Alemanha não recebe nem sequer o salário
mínimo reconhecido oficialmente como indispensável.
Continuando com os nossos números, descobrimos que três
milhões e meio de alemães ganham 450 Marcos por mês,
e que 30.000 ganham entre 12 a 13 mil Marcos mensais. Em termos
gerais, apenas 100.000 alemães vivem em condições
de completa segurança económica."
Existirá
qualquer justificação para que se sacrifique tanto
o povo para preservar um regime capitalista que só liberta
da insegurança económica um número insignificante
de habitantes? O Hitlerismo, uma das mais horríveis manifestações
do retorno para o barbarismo, nasceu e existe apenas para defender
estes 100.000 privilegiados. O que é verdade para a Alemanha
é, em linhas gerais, igualmente verdade para qualquer outro
país.
Não
vamos perder mais tempo a criticar um sistema capitalista que já
chegou por si mesmo a um ponto de colapso total. Chegou a altura
de propor alternativas, e vamos propor as nossas, sem sectarismos
partidários, e sem noções preconcebidas. Encarando
a situação objectivamente, vamos tentar encontrar
a abordagem mais directa possível em relação
ao problema da salvação humana, a garantia do direito
á vida e ao trabalho.
A
propriedade deve sair das mãos dos proprietários para
ser colectivizada. Não devemos confundir colectivização
com nacionalização, que não passa de uma forma
de capitalismo de estado. A criação de uma economia
comunista não é nem numa heresia nem numa impossibilidade.
A própria Igreja católica, numa altura em que ainda
era influenciada pelos preceitos Cristãos, isto é,
antes de sua submissão aos Césares de Roma, defendia
o comunismo com ardor e entusiasmo. Os seus maiores apóstolos
continuaram a defender os ideais comunistas ao longo dos séculos.
São
Crisóstomo disse: "O crime, a guerra e a rivalidade
apareceram na altura em que essas duas palavras geladas, ”teu”
e “meu”, surgiram. Ainda que tu herdes as tuas riquezas
do teu pai, que por sua vez as herdou dos seus avós, não
importa quanto recues, que hás de encontrar sempre um criminoso
entre os teus antepassados remotos, ou seja, toda a propriedade
tem a sua origem no roubo."
Santo
Ambrósio sustentou que a terra é propriedade comum
de todos (tal como o ar) e que a propriedade privada tem a sua origem
na usurpação. Nós tomamos a seguinte frase
de São Basílio: "Uma sociedade perfeita é
aquela que exclui toda a forma de propriedade privada. Esta sociedade
era o Bem primitivo, destruído pelos pecados dos nossos primeiros
pais." Santo Ambrósio, o Grande, afirmou que a terra
na qual todos nós nascemos, pertence a todos. A propriedade
privada é, de acordo com os Pais da Igreja, um pecado, e
de acordo com São Jerónimo, um homem rico ou é
uma iniquidade ou o herdeiro de uma iniquidade.
Não
só é a propriedade privada imoral, como também
representa um obstáculo insuperável ao reajustamento
económico do mundo. Em seu torno florescem os monstruosos
parasitas comerciais, burocráticos, políticos e sociais.
Em seu torno surgem o desemprego e a escravidão de homem
pelo homem.
Fermin
Galan, o herói de Jaca, teve por momentos o destino da Espanha
nas mãos. Se tivesse sido tão bom estratega quanto
revolucionário, ele teria triunfado e realizado o seu projecto
de uma criação nova. Inspirado pela força do
nosso movimento organizado de trabalhadores e pelas ideias libertárias,
o espírito apaixonadamente criativo de Galan cometeu o erro
de reconhecer a existência da propriedade enquanto usufruto.
Ele considerava que o instinto biológico e histórico
do egoísmo individual estava muito fortemente oposto á
supressão da propriedade e acreditava que, num período
inicial, a propriedade privada, intransferível e inacumulável,
deveria prevalecer – até que fosse encontrada uma solução
melhor. Ele dizia que dar uma parte igual da riqueza social a todos
satisfaz os instintos sociais, mas não os instintos individualistas
e rejeitou, portanto, as duas fórmulas do socialismo; "Para
cada um de acordo com sua capacidade" e "De cada um de
acordo com a sua habilidade, e para todos de acordo com as suas
necessidades”. Galan propôs: "Para todos e para
cada um de acordo com a sua habilidade e o seu esforço físico".
Não
podemos ignorar a parte de verdade que existe na posição
de Galan, e é muito provável que a revolução
tenha que ceder, em parte, ao instinto pessoal de propriedade do
camponês. Isto envolverá a coexistência da propriedade
totalmente socializada com a propriedade privada em usufruto simples.
Por
outro lado, não devemos esquecer os precedentes da propriedade
comunal, profundamente enraizada em Espanha, e dos quais Joaquim
Costa, no seu "Colectivismo Agrário" e Rafael Altamira,
na sua história da “Propriedade Comunal" nos dão
tantos exemplos. O último, referindo-se á propriedade
comunal, escreve, "A nossa península abunda em vales
pequenos, montanhas, e lugares onde as grandes explorações
agrícolas são impossíveis, existem igualmente
lugares onde as condições climáticas e geológicas
não favorecem nem o cultivo extensivo, nem o cultivo intensivo
". Eu acredito que estas localidades, que vivem num regime
de propriedade comunal, apresentam aspectos de uma tradição
de comunismo que amedronta ninguém. Elas mostram a necessidade
de proceder em harmonia com a nova ordem económica e social,
e ao mesmo tempo, demonstram na pratica que esta não é
nenhuma panaceia, mas sim uma realidade já estabelecida e
com fundo psicológico numa boa parte da Espanha.
Além
disso, os camponeses espanhóis vivem tão miseravelmente,
até mesmo com a sua propriedade, que não perderiam
nada em entregá-la á sociedade em troca de uma exploração
melhor da terra e de uma distribuição mais adequada
do trabalho e dos bens. Dos 13.530 contribuintes existentes na Província
de Ávila, 11.452 subsistem com um rendimento de menos de
1 peseta por dia, 1.758 com de menos de cinco pesetas, e 155 com
rendimentos entre as cinco e as oito pesetas diárias. Estes
números podem igualmente servir de média para o país
inteiro, e pode ser dito com segurança que 90% dos proprietários
de terras espanhóis ganham menos do que os trabalhadores
industriais, que não têm propriedade alguma. De um
total de 1.026.412 proprietários rurais, 847.548 ganham menos
de 1 peseta por dia, o que nos dá "uma classe de proprietários
rurais proletarizados, que não diferem em nada dos proletários
camponeses ou dos trabalhadores da terra na sua dependência
absoluta do mercado de trabalho." [1]
Nalgumas
partes, esses camponeses poderiam exigir a retenção
da propriedade da sua terra, nas condições propostas
por Fermin Galan, e assim poderiam obter uma concessão da
revolução libertadora, mas não levaria muito
tempo a que aprendessem a sua lição, e veriam através
da experiência a injustiça que causaram a si mesmos
por causa do seu egoísmo.
O
tormento de Tântalo não é nenhuma fantasia.
Ele é o símbolo da sociedade capitalista. O homem
está sedento e não pode beber porque as regras do
privilégio o impedem, ele tem fome e tem que sucumbir perante
elevadores cheio de grão e armazéns a rebentar. Poderá
alguém imaginar uma contradição maior do que
esta, em que a abundância se torna na principal fonte da miséria?
Tal é a realidade deste mundo. Tântalo é o cidadão
desprevilegiado de qualquer país moderno.
Na
nova sociedade, desde que existam matérias-primas, terra,
ferramentas e força muscular em grande quantidade, ou pelo
menos na quantidade necessária para assegurar um padrão
de vida superior a todos, devemos destruir todas as barreiras artificiais
que impeçam o uso desses recursos. Depois, se obtivermos
abundância de alguns bens, todos desfrutarão livremente
deles. Se, no princípio, alguns bens escassearem, o que existir
será distribuído equitativamente entre a população.
Não se trata de nenhum problema de cálculo diferencial,
mas de uma simples operação de bom senso.
Não
só é mais justo, mas também mais prático
e benéfico, que a abundância deva significar gozo para
todos, e não penúria para a grande maioria. Para chegar
a este resultado simples, será necessário socializar
a propriedade, pondo a terra nas mãos de quem a trabalha,
a maquinaria sob o controlo dos operários, os laboratórios
sob a direcção dos cientistas, etc. Alguns profetas
tardios da economia individualista, corujas nocturnas Manchesterianas,
como F. S. Nitti, irritam-se com a própria ideia de uma economia
comunista. Contudo, só podemos encontrar um equilíbrio
sob a forma de uma economia comunista ou, pelo menos, com uma tendência
definida para o comunismo, como forma de regular e coordenar a actividade
de todas as forças produtivas e distributivas de um país
ou de um grupo de países.
Os modernos projectos de economia planificada, quaisquer que sejam,
pretendem sempre efectuar melhorias no sistema de economia individualista,
mas encurtaríamos o caminho se a nova economia planificada
emanasse directamente das massas trabalhadoras, e não da
burocracia de um Estado convertido em autoridade suprema em todas
as matérias.
Nos
já experimentamos antes o sistema de comunismo totalitário.
Nós conhecemos a existência de um sistema comunista
sob o império Inca, e também o comunismo egípcio.
No Egipto existia trabalho forçado comum. Revillout descreveu
as condições de então como sendo uma espécie
de “Socialismo Estatal." É talvez neste tipo de
comunismo faraónico que se transformou o comunismo russo,
mas este género não corresponde de todo á consciência
moderna, apesar de tudo o que a diplomacia desse estado, supostamente
proletário, possa dizer ou fazer.
A
máquina de produção capitalista desenvolveu-se
tão fantasticamente, que já nem os próprios
capitalistas a entendem, e aqueles que afirmam entendê-la
mostram-se incapazes para controlá-la e dirigi-la. Essa é
a raiz de todas as contradições e dificuldades: os
próprios capitalistas, na sua voracidade por especulação
e lucro, desencadearam os espíritos da revolta, e agora não
sabem como calá-los. Eles esqueceram-se da palavra mágica
e tornaram-se nos joguetes da sua própria criação.
Algo
de semelhante aconteceu com o Estado moderno: cresceu tanto, ficou
tão complicado, e a sua maquinaria tão poderosa, que
o estadista, que em tempos antigos era o senhor de tudo, é
hoje um mero escravo da engrenagem estatal. É por isso que
não queremos ocupar, nas nossas posições de
combate, os lugares dos supostos líderes actuais. Nós
não seríamos capazes de fazer mais do que eles, nem
de agir de forma diferente da deles, tornando-nos por força
instrumentos dóceis da engrenagem, cuja existência
é incompatível com o direito de viver.
De acordo com as conclusões que retirámos do estudo
da economia moderna, os desenvolvimentos capazes de beneficiar a
todos terão necessariamente por base a coordenação
e a união. O trabalho é uma obrigação
mais ou menos consciente, algo que seria evitado se fosse possível.
Porém, se temos que trabalhar para viver, é preferível
faze-lo com o menor esforço possível. O gosto individual
do produtor tem menos peso na economia moderna do que na do artesão.
Podemos até dizer que não tem qualquer peso, uma vez
que o produtor geralmente executa apenas um único movimento
num conjunto infindável de tarefas para chegar ao produto
final. Pode até ser que ele nem sequer saiba a que conduz
o seu trabalho. Isso não é bom, mas é assim
que a indústria moderna funciona.
Reivindicar
uma forma de trabalho que nos devolvesse um pouco ao artesão,
seria o mesmo que pregar para o vento, e far-nos-ia parecer uns
excêntricos. A vida económica tende a ser coordenada
de forma científica, não só porque é
esse o método de produção mais económico,
mas também porque a população aumentou desproporcionadamente,
quando comparada com a dos tempos do artesão.
William Morris realizou magníficos trabalhos em ébano,
mas o seu sistema de trabalho não pôde prover a humanidade
com toda a mobília necessária, e os produtos dele
não seriam considerados uma necessidade social. Quem quer
que desejasse realizar um tal trabalho, teria que o fazer fora das
horas de trabalho consagradas á satisfação
das necessidades gerais. Para já, interessa-nos assegurar
a todos os seres humanos o mínimo indispensável para
a sua existência, em termos de alimentos, vestuário,
habitação, e assim sucessivamente. Quando este mínimo
indispensável estiver assegurado, novos horizontes se abrirão,
em que outros princípios menos rígidos possam ser
aplicados, pelo menos fora do mecanismo económico geral.
Também restará, depois das horas de trabalho socialmente
estabelecidas para toda a indústria, tempo suficiente para
a satisfação e gratificação dos gostos
pessoais de cada um.
Da
mesma forma que não podemos voltar a usar carroças
de bois como meio de transporte, também em todas as coisas,
em todas as esferas da economia, é necessário que
se adoptem as ideias mais progressivas e que se aproveitem todas
as inovações possíveis para se conseguir obter
um mecanismo produtivo mais aperfeiçoado (o maior retorno
com o menor esforço). Pessoalmente, preferíamos trabalhar
um pouco mais, obtendo, por conseguinte, uma produção
menor, mas mais em harmonia com a multiplicidade de métodos.
Contudo, a multiplicidade de métodos será reduzida
a cada dia, com vista a obter maiores resultados com menos esforço.
E também porque as populações, já tão
numerosas em todos os países e as suas necessidades, por
vezes supérfluas mas, não obstante, reais, aumentaram
centenas de vezes em relação ás populações
de há cinquenta, cem ou duzentos anos atrás. Hoje,
nós exigimos mil coisas que os nossos antepassados de há
séculos atrás não teriam sonhado sequer como
possíveis. Nós somos muito mais numerosos, e é
necessário que a produção de um homem moderno
seja 10, 20, ou 50 vezes superior á de um grego antigo ou
á de um cidadão romano. Por isso, pelo menos durante
a primeira parte da Revolução, não vemos outra
solução além da de seguir o preceito de economia
moderna: coordenação unificada sempre que for possível.
[1] S. Madariaga; "Espanha", 1930, Página 14.
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