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Organização
do Trabalho
Talvez
por ironia, o parlamento da Segunda República Espanhola proclamou,
no preâmbulo da Constituição, a "República
Espanhola dos Trabalhadores." Muitos consideraram isso absurdo,
e afirmaram que um título mais apropriado seria "Espanha,
a República dos Polícias…e dos Trabalhadores
Presos." Uma República de Trabalhadores não é
algo que se crie num parlamento, nem tão pouco por decreto
estatal. Ela tem que ser criada pelos trabalhadores nos seus locais
de trabalho, não fora deles.
Vamos traçar agora um esboço dos organismos económicos
da Revolução e definir as linhas gerais da nova estrutura
económica. Não pretendemos erigir nenhuma espécie
de novas Tábuas da Lei a serem seguidas imperiosamente, mas
é obvio que uma República de Trabalhadores deve ter
o trabalho como sua base fundamental, eliminando os proprietários
e os intermediários. Uma República de Trabalhadores
tem que tomar posse de toda a riqueza social e empreender a sua
administração pelos próprios produtores. Os
anarquistas têm publicado bastante literatura socialista construtiva
nos últimos anos e, mais importante ainda, tem sido a fé
popular na possibilidade de uma mudança nas condições
económicas e políticas que assegure a todos os seres
humanos um mínimo de existência por meio do trabalho
de cada um.
Nós
sabemos que o caminho para reconstrução do mundo não
é livre de obstáculos, erros e encruzilhadas. Nenhum
ser humano é infalível, muito menos uma instituição,
não importa quão revolucionária e proletária
possa ser. O que importa, como primeiro passo, é criar um
organismo que se encarregue de resolver os problemas diários
e imediatos da Revolução. Esse organismo não
poderá ser senão o trabalho organizado, sem a intervenção
do Estado, e sem intermediários e parasitas.
Não
podemos voltar a um primitivismo económico, temos que aspirar
a um regime de produção e distribuição
organizado pelos próprios produtores e consumidores, obtendo
a máxima coordenação de todos os factores de
produção.
Contrariamente
á essência do sistema capitalista, que não pôde
evitar desperdícios terríveis e uma economia regionalista
suicida, nós procederíamos á coordenação
da economia numa escala nacional, de maiores e mais vastas possibilidades.
Nós concordamos com Cornelissen, quando ele diz que o núcleo
da produção é cada estabelecimento, não
a indústria.
Num
único estabelecimento moderno, os trabalhadores de várias
indústrias e ofícios podem trabalhar juntos, preparando
a organização local, nacional, ou internacional de
todos os estabelecimentos das respectivas indústrias.
Naturalmente, será necessário preservar a liberdade
do indivíduo dentro do grupo, a do grupo dentro do sindicato,
a do sindicato no conselho de indústria, e a do ultimo no
conselho local, etc. Teríamos, portanto, que criar simultaneamente
múltiplas excepções para o permitir. Por conseguinte,
deve ser criado um organismo inclusivo geral da economia, que vamos
tentar definir.
O
que vamos tentar definir não são sonhos para o futuro,
mas sim o que é realmente possível fazer nas condições
actuais com o material humano disponível. Podemos ir além
do presente sistema de capitalismo privado sem termos necessariamente
que acabar num sistema de capitalismo de estado. Vamos dar aos que
trabalham os meios para se tornarem nos verdadeiros donos da produção
e da distribuição. Se o nosso projecto não
realiza as aspirações dos mais exigentes, e contamo-nos
entre eles, ele é, não obstante, algo de vivo, que
não fecha a porta á esperança e á possibilidade
de uma perfeição futura.
O
Trabalho será um direito e, ao mesmo tempo, uma obrigação.
A vida económica não pode ser interrompida, muito
pelo contrário. A Revolução tem que estimulá-la
poderosamente, e devemos aprender agora o que temos que saber para
poder continuar a produzir, distribuir e consumir durante e depois
da Revolução, não só com aqueles que
são seus partidários, mas também com aqueles
que se lhe opõem. Teme-se que, numa sociedade livre, os que
não queiram trabalhar iludam com facilidade as sua obrigações.
Contudo, num sistema de trabalho organizado, é muito difícil
para alguém manter-se á margem da produção.
Os excessos de coerção e de rigor são mais
de se temer que o afrouxamento dos laços que mantêm
coesa a estrutura produtiva. É por isso que dizemos que a
próxima Revolução, á qual os anarquistas
vão dar todo o seu entusiasmo, todo o seu espírito
de luta, e todo o seu sacrifício, será uma Revolução
depois da qual a resistência á força não
se fará sentir. Prevemos a realização um longo
e fecundo trabalho libertário depois de termos esmagado o
capitalismo, uma vez que séculos de educação
sob o privilégio e pelo privilégio não podem
ser extirpados de um único golpe.
Depois da Revolução, vamos ter Conselhos de Fábrica,
Oficina e Industria, constituídos por trabalhadores, executivos,
e técnicos, representando o pessoal do estabelecimento que,
por sua vez, pode moderar e revogar os seus delegados, em vez de
termos capitalistas, proprietários e empresários.
Ninguém sabe melhor que os próprios trabalhadores
quais são as capacidade de cada um no local de trabalho.
Ali, onde todos conhecem todos, é possível praticar-se
a democracia. O Conselho de Fábrica, representando o pessoal
do mesmo local de trabalho, irá coordenar e tornar coerente
o trabalho no estabelecimento, combinando as suas actividades com
as actividades relacionadas de outros estabelecimentos. O estabelecimento
dispõe e regula livremente o seu trabalho, sem que nenhum
factor externo intervenha. O estabelecimento dispõe de completa
autonomia não pretendendo, contudo, ter quaisquer caprichos
pessoais no que respeito á produção, uma vez
que tem que responder ás suas necessidades e possibilidades
de acordo com o conhecimento exacto das condições
de cada estabelecimento e das necessidades e pedidos da população.
Os
Conselhos de Fábrica serão combinados de acordo com
as suas relações funcionais, formando os Sindicatos
de Produtores de Bens Semelhantes e os Sindicatos de Indústria.
Estas novas instituições não vão dispor
de qualquer autoridade no que diz respeito á organização
interna de cada estabelecimento. A sua função será
prover á modernização da maquinaria, á
fusão e coordenação das fábricas, á
supressão de estabelecimentos improdutivos, etc. Os Sindicatos
são os organismos representativos da produção
local, cuidando não só da sua preservação,
mas também do seu futuro, através da escolas de ensino
profissional, e institutos de pesquisa e laboratórios experimentais,
conforme a sua iniciativa e os meios disponíveis. Os Sindicatos
estão coligados de acordo com as funções básicas
da economia, que dividimos em dezoito sectores, ou ramos de actividade
gerais, necessários á marcha progressiva de uma sociedade
moderna. Eles são os seguintes:
Conselho das Industrias de Produtos Alimentares
Conselho das Indústrias de Construção
Conselho das Indústrias de Vestuário
Conselho da Agricultura
Conselho da Produção de Gado
Conselho da Silvicultura
Conselho das Minas e Indústrias de Pesca
Conselho das Indústrias de Utilidade Pública
Conselho das Indústrias de Transportes
Conselho das Comunicações
Conselho das Indústrias Químicas
Conselho dos Serviços de Saúde Pública
Conselho das Indústrias Metalúrgicas
Conselho Local de Economia
Conselho Regional de Economia
Conselho Federal de Economia
Conselho de Crédito e Troca
Conselho das Publicações e Actividades Culturais
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