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Conselho das Indústrias de Construção

 

Na literatura estrangeira, abundam descrições sobre a tragédia da casa espanhola. Uma grande parte da população ainda vive como trogloditas, ou em lugares que não merecem sequer o nome de casas. [1] Se houvesse falta de matérias-primas, então esta situação podia ser, de certa forma, justificada. Mas não há nenhuma escassez de material de construção, nem de arquitectos ou construtores. A relativa escassez de madeira pode ser facilmente ultrapassada de modo vantajoso, sendo esse material de construção substituído pelo metal, mais moderno, e tanto a pedra como o tijolo existem em quantidades abundantes. Além disso, é um facto notável que sejam justamente os Sindicatos das Construções a apresentar o maior número de desempregados.

Em 1910, existiam um total de 3.644.483 casas de habitação, 800.179 edifícios diversos, e 442,931 edifícios desocupados. Deste total, 1.738.557 eram simples cabanas de um piso, 2.355.227 tinham dois pisos e, 793.809, mais de dois pisos. Foram construídos mais edifícios desde essa altura, mas também houve um número considerável deles que foram demolidos, ou que se desmoronaram com o passar do tempo. O resultado é que um número considerável de habitantes vive em condições completamente inadequadas em termos de higiene, ficando exposto ás doenças por causa da humidade, da ventilação deficiente, e da imundice.

Nas grandes cidades, os chamados bairros populares causam horror só de se olhar para eles. Os bairros de lata de Madrid e o " Barrio Chino ", de Barcelona, são excelentes exemplos. Em Madrid, a inspecção oficial classificou 28.000 casas como inadequadas, das quais 10.000 foram declaradas como inabitáveis. Mas a população trabalhadora ainda continua a viver nelas, dia após dia. E não é tudo: em Dezembro de 1933, o número de casas habitáveis era de apenas 205.835. Um censo realizado na mesma altura contou 215.842 famílias.

Não só é a habitação escassa e de má qualidade, com também é cara. Em Madrid, não existem mais de 60.000 casas com rendas compreendidas entre as 50 e as 70 pesetas mensais. Por causa disso, os proletários têm que gastar uma parte excessiva dos seus salários com o aluguer.

No princípio de 1935, a Associação dos Fabricantes de Cimento queixou-se do baixo consumo dos seus produtos. Mais de 100.000 dos trabalhadores desta indústria estavam desempregados e as fábricas, construídas para produzir em grande escala um material que é mais do que abundante, não podiam funcionar de forma lucrativa.

A capacidade de produção da indústria cimenteira foi calculada em 2.600.000 toneladas anuais, ou seja, 509 vezes mais do que o foi consumido dos últimos cinco anos. Podemos ver, portanto, que existem fábricas de cimento em número suficiente para satisfazer as nossas necessidades, de uma tal forma, que nem um único trabalhador das indústrias de construção devia ficar parado. Temos muito ferro, muito espaço livre nas cidades, e todos os pré-requisitos técnicos estão satisfeitos. Não falta nada para que comecemos a operar uma transformação radical nos espaços de habitação espanhóis, de acordo com todas as exigências da higiene e do conforto.

Naturalmente que a Revolução não pode dar ás pessoas o que ainda não existe. No princípio, as condições melhorariam muito com a distribuição equitativa das casas monopolizadas pelas famílias pequenas dos bairros ricos das cidades entre as famílias dos trabalhadores sem abrigo.

Mas não devemos parar por aí: desde o princípio, a Revolução deve dirigir a sua atenção para a construção de habitações modernas nas cidades e nos campos, em número suficiente para acomodar confortavelmente todos os habitantes. Se houver alguma coisa a temer no período pós-revolucionário, será a possível falta de pessoal em número suficiente para proceder á necessária renovação técnica e industrial imediata. Isto representa um contraste absoluto com a situação actual, em que 40 a 60 porcento dos trabalhadores da indústria de construção se encontram sem emprego.

A indústria de construção seria organizada de acordo com os mesmos princípios aplicados nas indústrias do ramo alimentar, com os seus Conselhos de Fábrica e Oficina, sindicatos e federações. Os trabalhadores, administradores, e técnicos de cada fábrica ou oficina seriam coordenados através da acção dos sindicatos, nos quais cada estabelecimento seria representado pelos seus delegados eleitos. Podiam ser formadas e coordenadas pela federação local secções de arquitectos, construtores, carpinteiros, electricistas, rebocadores, etc. [2] Mais uma vez, os electricistas, por exemplo, também podiam pertencer ao Conselho Local das Indústrias Eléctricas. São questões de conveniência, que não criarão atritos. O mesmo é verdade para os transportes. Tudo isto serve para mostrar a impossibilidade de uma classificação rígida e a necessidade de deixar os detalhes da organização para serem resolvidos posteriormente, de forma prática e espontânea.

O importante é manter a individualidade de cada trabalhador na fábrica, de cada Comité de Fábrica no Sindicato, e de cada Sindicato no Conselho Local de Indústria. Os pintores e os arquitectos podiam, por sua vez, manter as suas assembleias e comités permanentes, assim como estabelecer escolas profissionais. Todas as actividades económicas, contudo, devem ser controladas pelos órgãos produtivos e distributivos do Conselho administrativo de cada localidade, sendo finalmente ligadas, a partir dos Sindicatos, Conselhos de Indústria, e Conselhos Locais, ao Conselho Federal de Economia.

Os comités de bairro, representando os habitantes, desempenhariam uma função importante, propondo melhorias, reformas, e o que mais fosse necessário. Eles dariam á população em geral o devido meio para exprimir as suas necessidades, dando-lhes igualmente um meio para resolverem os seus próprios problemas.

Se necessário, os Conselhos Regionais criariam escolas especializadas para os arquitectos, engenheiros, técnicos, e trabalhadores especializados. Estes centros de pesquisa, por sua vez, constituiriam os seus próprios comités administrativos, com delegados espalhados pela indústria. Desta forma, todos os elementos que contribuem para a construção de habitações seriam coordenados em termos locais, regionais e nacionais numa base igualitária, com direitos iguais para todos.

[1] Dezenas de milhares de espanhóis vivem em cavernas e, uma cidade inteira, Guadix, é composta em 60% por cavernas. No sudoeste, em Aragão, Castela, e outras províncias, as impressões causadas por este horríveis formigueiros humanos são inesquecíveis. Gonzalo Reparaz, "Miséria e Atraso de Espanha", página 49.

[2] Na Suécia, como forma de defesa contra o desemprego e o possível boicote dos reformistas, os Sindicalistas da S.A.C criaram grémios de construção. Eles demonstraram, mesmo sob o actual sistema de propriedade privada e trabalho assalariado, a vitalidade da acção sindicalista.

 


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