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Europol,
a Nova Policia Política
Poucas
pessoas já ouviram falar da Europol e, das que ouviram, poucas
sabem do que se trata realmente ou que poderes possui. Tristemente,
o objectivo dos governantes parece ser esse mesmo: construir esta
organização policial europeia em segredo, nas suas conferências
e cimeiras, conferindo-lhe poderes bastante amplos em termos de
controlo e repressão da dissidência política.
Criada em 1995, a Europol tem vindo desde então a ganhar uma série
de poderes que, a nosso ver, a tornam numa nova polícia política
ao serviço do regime democrático-capitalista. Desde 1999 que lhe
foram conferidas competências no sentido da criação de uma unidade
"anti-terrorista". E, logo na 1ª Conferência Anti-Terrorista da
Europol, realizada em Madrid em Fevereiro de 2001, aprovou-se
o Documento Madrid que, após a análise de "grupos radicais", propõe
apoiar a iniciativa espanhola, italiana, grega e portuguesa de
"investigação relativa ao terrorismo anarquista" e de impulsionar
o estabelecimento de um "plano de recompensas ou incentivos económicos
para aquelas pessoas que forneçam informações". Qualquer semelhança
com uma polícia política e a sua respectiva rede de bufos não
será pura coincidência.
A definição de terrorismo no âmbito da União Europeia torna-se
oficialmente cada vez mais ampla e não se limita à actividade
de pessoas integradas em grupos armados, mas a qualquer um que,
uma vez qualificado como "anarquista" ou, no termo de sentido
mais amplo, de "radical", se oponha ao pensamento único e pratique,
ainda que sem a utilização de violência alguma, a dissidência
política.
Ainda em Fevereiro de 2001, Espanha e Itália criam uma equipa
conjunta de investigação sobre "terrorismo anarquista".
Em Junho de 2001, o Parlamento Europeu concorda em preparar três
recomendações ao Conselho Europeu, propostas pelos dois maiores
partidos políticos espanhóis (PP e PSOE): a urgente aprovação
do Espaço Judicial Europeu (reconhecimento mútuo das resoluções
judiciais), a tipificação comum do delito de terrorismo e a aprovação
do mandato de busca e captura (o desaparecimento da actual processo
de extradição).
"O ambíguo Conceito de Terrorismo, o Euro-mandato de busca e captura
e o Espaço Judicial Europeu, implicam sem dúvida a arbitrariedade,
o policiamento e a eliminação de recursos e garantias jurídicas
e, definitivamente, a destruição da noção de delito político,
que havia constituído o núcleo central do direito liberal continental
depois da Revolução Francesa. É a produção em cadeia capitalista
aplicada aos assuntos judiciais: o que importa é obter lucros,
trata-se de automatizar e mecanizar, que os processos sejam rápidos,
não importa nem como nem à custa do quê. Trata-se de eliminar
os seus únicos obstáculos neste processo: as liberdades básicas,
os advogados de defesa, os processos judiciais, os juizes recalcitrantes"
segundo o advogado espanhol dissidente Endika Zulueta.
Em Julho de 2001, no rescaldo dos protestos contra o encontro
UE-EUA em Gotemburgo e contra a cimeira do Banco Mundial em Barcelona,
ambos fortemente reprimidos pelos corpos polícias, inclusive com
balas reais em Gotemburgo, realiza-se em Bruxelas um conselho
de Ministros da Justiça e do Interior da União Europeia sobre
"Segurança das reuniões do Conselho Europeu e de outros eventos
que possam ter um impacto comparável". Antecedendo a brutal repressão
dos protestos protagonizados por 300 mil pessoas contra a reunião
do G8 em Génova nesse mesmo mês de Julho, que resultaria na morte
do manifestante Carlo Giuliani, no "desaparecimento" de outros
tantos e em centenas de casos de espancamentos, tortura e detenções
arbitrárias por parte dos "carabinieri" italianos, esta reunião
de Ministros elabora cinco medidas de restrição de direitos fundamentais
reconhecidos pelas Constituições estatais. Entre outras encontram-se
a "possibilidade de aumentar as competências da Europol na elaboração
de uma análise comum dos distúrbios", o "reforço e fomento de
uma troca rápida e estruturada de dados relativos a manifestantes
violentos com base em ficheiros nacionais", "medidas de expulsão
de manifestantes", assim como o "impedir que pessoas reputadas
como autoras de distúrbios à ordem entrem no país anfitrião do
acontecimento".
Em Agosto de 2001, os Ministros do Interior da Itália e da Alemanha
manifestam-se a favor da criação de uma polícia europeia anti-distúrbios
que possa fazer frente aos crescentes protestos anti-capitalistas
durante as cimeiras dos poderosos.
Em Setembro de 2001, o Parlamento Europeu debate a possibilidade
de os Estados realizarem vigilâncias massivas do correio dos cidadãos,
reconhecendo-se "a possibilidade de as mensagens poderem ser interceptadas
quando esteja em perigo a segurança do Estado".
A presidência espanhola da UE, durante o primeiro semestre de
2002, tem feito tudo por concretizar todas as propostas possíveis
de incremento da repressão sobre movimentos sociais e políticos
anti-capitalistas. Logo em Janeiro deste ano, teve lugar em Madrid
uma reunião de representantes de todos os estados da UE e das
respectivas polícias sobre o uso das novas tecnologias em matérias
policiais. Nesta conferência a proposta mais importante foi a
do estabelecimento de um Centro de Alerta e Investigação Tecnológica
à escala da União Europeia. O citado Centro, controlado pela Europol,
não seria mais que o oficializar do controlo que a Europa policial
tem sobre os cidadãos através das novas tecnologias, especialmente
a Internet e o telefone móvel, tentando dar cobertura àquilo que,
de todas as perspectivas, vulnera vários direitos fundamentais.
No Estado espanhol, o responsável pela elaboração da proposta
de criação do Centro, os corpos especiais criados para o efeito
reconhecem estar a controlar a dissidência política através da
Rede. Tanto os serviços de polícia como os da Guarda Civil dedicam-se
a rastear as comunicações de oito servidores alternativos da Rede,
pelo simples facto de difundirem comunicações do movimento anti-globalização.
As preocupações que aqui transmitimos são mais do que "paranóias"
de "militantes radicais" ou baboseiras sem interesse para o comum
cidadão. A situação repressiva está a tornar-se tão grave que
já levou a insuspeita Amnistia Internacional a lançar uma campanha
com o lema "Mais Europa, Mais Justa!", solicitando à presidência
espanhola da UE que inclua os Direitos Humanos na sua agenda de
trabalho, considerando que "o incremento da segurança na UE está
a reduzir os Direitos Humanos", apontando como algumas das questões
mais preocupantes as denúncias por maus tratos e torturas que
se produzem no âmbito da UE.
Também a Statewatch, uma organização não governamental que vigia
os atentados dos Estados europeus contra as liberdades cívicas,
manifestou a sua preocupação face às tentativas dos líderes da
EU tendentes à criminalização, não só das actividades anarquistas,
mas de qualquer forma de activismo político anti-capitalista,
desde os protestos anti-globalização até às simples manifestações
sindicais.
Por isso nos manifestamos,
CONTRA
A EUROPOL, CONTRA A REPRESSÃO POLICIAL, CONTRA UM SISTEMA QUE
NOS DEVORA E CONVERTE EM ESCRAVOS!
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