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Protestos Contra o Forum Economico Mundial
em Nova Iorque

 

Dia da "grande" manifestação convocada pela plataforma AWIP (Another World Is Possible coalition), que engloba a maior parte dos grupos que apelam à convergência contra o Fórum Económico Mundial. Esta manifestação está autorizada a partir do canto Sudeste do Central Park e percorrerá um percurso que a levará às portas do hotel Waldordf-Astoria onde decorre a cimeira do FEM.

A Anti-Capitalist Convergence (ACC) - grupo anarquista - e a Reclaim the streets (RS) - banda de tambores que animou grande parte das manifestações - marcaram no entanto o início da "sua" marcha no canto Sudoeste do Central Park em Columbus Circle, fazendo uma mini-marcha/Reclaim the Streets, não-autorizada, para ir ao encontro da marcha da AWIP. Formámos então o indispensável Black Bloc (B.B.), composto principalmente por membros da ACC e seus simpatizantes, incluindo o nosso grupo de afinidade, formado por anarquistas portugueses e americanos. Este grupo (terrorista) responde pelo acrónimo de FLANI-BI (as iniciais em português de Frente de Libertação Anarquista de Nova Iorque - Brigada Internacional). :)

O B.B. vai-se formando e fortalecendo com os seus membros a darem os braços em apoio mútuo como forma de protecção contra possíveis acções da polícia, protecção esta reforçada por vários elementos do bloco que se colocam à frente deste, com escudos de plexiglass, e dos lados, com cartazes até ao chão.

Apesar da longa espera e de alguma presença policial no ponto de partida ACC/RS, não sentimos, durante o percurso, um grande controlo, apesar do BB ser literalmente escoltado.

Caminhámos calmamente ao longo do Central Park, sempre ao som dos tambores. "Who's streets? Our streets!" é uma das palavras de ordem gritadas. A dada altura, já mais para o fim do percurso pelo Central Park, este é rodeado por vários elementos dos mass media que incessantemente nos filmam e tiram fotografias e aos quais gritamos palavras como "Fuck" e "Boycott corporate media!".

Chegamos então ao ponto de partida da grande manifestação, onde uma enorme multidão (avaliada pelo indymedia de Nova Iorque em cerca de 15 mil) aguarda a passagem dos gigantescos bonecos que fazem parte de um teatro de rua organizado por um grupo de arte, em que participaram todos quantos quiseram.

Para além dos manifestantes, já é possível ver um maior número de polícia. Desta última, foram destacados, segundo as notícias, 40 mil agentes. Depois do teatro passar, passámos um bom bocado de tempo em que, para além dos ajustes de posicionamento e reforço da segurança do Black Bloc dentro da multidão, nada acontece.

É então que, sem que nada o fizesse prever, ouvimos, de repente, um barulho crescente e contínuo de botas a bater no asfalto e abre-se, com rapidez, uma enorme clareira na zona em que estávamos. Na origem desta, vemos vários polícias que atacam e carregam sobre a multidão, prendendo pessoas aparentemente ao acaso e agredindo quem não prendiam. Vemos um e outro manifestante já detidos, deitados no chão com as mãos atrás das costas.
Felizmente, muitos de nós conseguem manter a calma e permanecer unidos com os braços entrelaçados, evitando assim cair contra as bancas de ferro contra as quais fomos empurrados. Curiosamente ou não, a incursão policial por dentro da multidão parece ter sido exactamente na direcção do BB, tendo desaparecido desde então todos os elementos que transportavam escudos.

Seguem-se alguns momentos de inquietação e talvez algum pânico por parte de alguns manifestantes perante a actuação da polícia que, depois da incursão inicial, volta repetidamente a atacar a multidão. Muitos manifestantes afastam-se do lado em que esta ataca, mas a polícia parece estar a rodear grande parte do Central Park na zona do início da manifestação.

É durante estes acontecimentos que se torna visível a passagem organizada pela polícia para o restante percurso. Esta consiste num estreito corredor, onde só é possível a passagem de pequenos grupos de pessoas. De cada um dos lados deste, encontra-se uma densa fila de polícias que vigiam cada um dos grupos de manifestantes. Aparentam estar a deixar passar toda a gente sem problemas. No entanto, à passagem do BB, começam a agarrar todos os elementos que aparentam pertencer ao bloco (totalmente vestidos de preto e caras tapadas). As detenções são feitas com enorme violência, puxando a polícia os manifestantes de dentro dos grupos, atirando-os para o chão e algemando-os.

Esta tinha anunciado, antes da manifestação, que, numa rigorosa preocupação de respeito pela liberdade anónima de expressão, iria prender todo o manifestante que possuísse uma máscara ou que cobrisse a sua cara servindo-se de uma lei do final do séc. XIX que proíbe grupos de mais de três pessoas de andarem nas ruas de Nova Iorque com a cara tapada. Quanto aos escudos, a mesma polícia, cuja actuação justificou exactamente a necessidade e utilidade dos mesmos, promoveu-os de armas defensivas a ofensivas, dizendo que estes iriam ser utilizados para atacar a polícia, justificando esta a sua acção por ter "indicações" de que tal iria acontecer.

Mas, não obstante os contínuos ataques da parte da polícia, muitos de nós que conseguem atravessar o corredor (destapando por momentos a cara) e a manifestação vai-se a pouco e pouco formando para lá deste. Depois destes ataques, poucos ousam cobrir a cara. O BB demora a voltar a juntar-se e, durante toda a marcha, não voltaria a ser um grupo forte e unido, notando-se algum sentimento de insegurança por parte dos seus membros.
A manifestação prossegue agora rodeada de polícia, dos dois lados da rua, quer posicionada em longas filas ao longo do percurso, aproveitando para filmar de cima de uma carrinha todos os que passavam, quer seguindo-nos pelo percurso estabelecido. Este consiste numa longa marcha que atravessa várias ruas da zona mais urbanizada de Nova Iorque conhecida como MidTown.

O percurso é o seguinte: East 59th Street na direcção este, Lexington Avenue na direcção sul, East 52nd Street para leste, Second Avenue direcção sul, East 47th Street para oeste e Park Avenue na direcção norte até à East 49th Street.

O objectivo final do percurso é o infame Waldorf-Astoria que se situa entre a 49th e 50th Street, onde decorre a mórbida cimeira de chefes de multinacionais e de grandes corporações (incluindo grupos económicos possuidores de alguns dos principais mass media como a CNN, ABC, NBC), que constituem o Fórum Económico Mundial, aos quais se juntam alguns chefes-de-estado. Uma das características da NYPD é a de agarrar pessoas ou grupos isolados na cauda da manifestação. Por isso, houve preocupação por parte do BB (grupo obviamente visado) em manter-se no meio da marcha e por parte dos manifestantes em geral de não deixar espaços vazios que facilitem a incursão da parte da polícia e, com vista a isto, são por vezes realizados alguns avanços e recuos rápidos para preencher estes mesmos espaços e manter a unidade.

A dada altura, começam a chegar notícias à parte da frente de que a polícia está a atacar a parte de trás da manifestação. A multidão pára durante um bocado e parte dos manifestantes dirige-se para a parte de trás desta com alguns afirmando que a polícia está a tentar dividir a marcha. Muitos ficam e passado algum tempo a manifestação reinicia-se e retomamos a caminhada.

À medida que a manifestação se aproxima do hotel, a polícia começa a bloquear a marcha, só deixando passar alguns grupos de cada vez para logo a seguir cortá-la de novo, controlando desta maneira o fluxo de pessoas. Isto gera confusão e preocupação por parte de alguns manifestantes que receiam acções da polícia sobre os grupos por estarem isolados e o acto torna-se mais frequente de cada vez que esta se aproxima mais do hotel.

Ao chegar à proximidade deste, a polícia não nos concede, como estabelecido e autorizado, o acesso à rua final, próximo do Waldorf-Astoria e interrompe a marcha dois blocos antes do previsto. A confusão é aproveitada pela polícia para se juntar à nossa volta em maior número e, mais uma vez, nos filmar.

Sabendo que a marcha está AUTORIZADA por mais aquele troço, decidimos passar a marcha de verde para vermelha, entoando um cântico que permitiu avisar aqueles que não desejavam permanecer ali nessas condições. Nessa altura, o Black Bloc volta a ser predominante, preparando-se para confrontos com a polícia de choque. Quando, finalmente, conseguimos formar um bloco consistente, organizado e estruturado na linha da frente, notou-se alguma inquietação e nervosismo dos dois lados da barricada, tendo-se feito então alguma acção directa, incluindo pendurar cartazes (com algum malabarismo à mistura) em postes.No que nos pareceu (talvez por ingenuidade) uma vitória da nossa pressão, a polícia abre a barreira na condição de nos afastarmos um pouco. Acedemos e passamos, apenas para encontrar outra barreira, mais densa e mais preparada no quarteirão seguinte. Depois de ter passado um grupo relativamente pequeno, tornam a fechar a primeira barreira, ao que reagimos voltando atrás para protestar. Depois de alguns momentos de impasse, tornamos a organizar-nos junto à segunda barreira, onde tentamos decidir se queremos furar a barreira pelos lados ou sentar-nos no chão como forma de protesto.

Nisto, começámos a sentir o chão tremer e demos conta que se tratava de polícia a cavalo (em movimento constante) e sentimos um foco de luz que nos impedia de ver com clareza o que se passava do lado de lá. Decidimos então, visto que os cavalos se encontravam irritados e nervosos, abandonar o local e seguir em bloco (tomando as ruas) para outro lado. Comunicámos isso à polícia, que, parecendo agradados com esta decisão, nos encurralaram naquele quarteirão.

Não entrámos em pânico e acordámos, depois de alguma relutância, em sair em fila indiana. Isto, claro, depois de ameaçarem prender-nos a todos se assim não fosse e se saíssemos do passeio por um instante que fosse.

Começámos a sair, passando um a um por um novo corredor (sendo novamente filmados) e só depois reparámos que apenas saíam grupos de 10. Somos vigiados por uma enorme quantidade de polícia de choque, num clima de controle e intimidação onde só faltava ordenar aos manifestantes que andassem de mãos no ar, e por elementos da "New York's finest" ou NYPD, nos carros da qual se podem ler as, não fosse a seriedade da violência, quase hilariantes palavras "Cortesy, Professionalism, Respect".

Ao início, conseguimos esperar pelo grupo seguinte, mas, pouco a pouco, tornou-se impossível. Com isto, foi boicotada a nossa vontade de reagrupar para mais acções.
Chegados à Grand Central Station, um terminal e estação comum entre vários transportes metropolitanos de Nova Iorque (perto do Waldorf- Astoria), um grupo religioso participante da manifestação improvisa uma cerimónia que desperta a curiosidade de quem passa, com os seus participantes a cantar e a formarem uma grande roda que dança no centro do enorme átrio da estação, obrigando a mesma a ficar fechada durante pelo menos uma hora. A polícia parece ainda querer impedir a realização desta cerimónia, mas esta acaba por ser permitida, terminando mais tarde por vontade dos manifestantes.

Com isto terminam as manifestações de sábado. Os relatos posteriores indicam que, para além dos manifestantes presos ao acaso, também foram detidos alguns, que foram escolhidos no meio da manifestação (por uma razão ou por outra), tendo inclusivamente sido gaseados com gás-pimenta. Ataque atrás de ataque, a violência foi claramente unilateral e sem qualquer provocação.

Domingo, dia 3 de Fevereiro

Ao início da tarde, na rua de St. Marks que se situa na zona de East Village na ilha de Manhattan, começa a juntar-se uma pequena multidão que se espalha pelas várias zonas da rua. Passado algum tempo, começam tambores a soar e a multidão junta-se à volta destes e tem início uma manifestação que não está autorizada, convocada pela Anti-Capitalist Convergence, a plataforma anarquista.

A polícia tem já conhecimento desta e aguarda perto. A multidão, na qual se inclui uma banda de samba, começa então uma denominada "snake march" e, perseguida por jornalistas que a fotografam, percorre aleatoriamente as várias ruas da zona de East Village. Estas são inicialmente percorridas pelos passeios e, a dada altura, os manifestantes fazem uma incursão pela estrada parando o trânsito. A palavra de ordem mais gritada é "The world needs us in the streets! We won't back down! We won't retreat!".

A polícia começa então a seguir esta quer com carrinhas, quer com agentes a pé, cheios de algemas de plástico branco à cintura. O som pautado de algumas sirenes indica que não está muito paciente. A manifestação é então marcada por alguns momentos de corrida, na tentativa de despistar a polícia que surpreendentemente começa a surgir em cada cruzamento. O cerco e a presença policiais aumentam e as corridas também. Começam os primeiros ataques e a manifestação transforma-se numa enorme fuga com os manifestantes a tentar escapar da polícia. A polícia começa então a surgir de todo o lado prendendo os activistas de forma agressiva. A abordagem é feita maioritariamente por agentes que perseguem os manifestantes de carro, interceptando-os com estes e saindo então de dentro deles para deter os manifestantes. Os grupos vão-se dividindo e, ao perseguir um destes, um carro da polícia entra pelo passeio dentro, e o ser que sai lá de dentro grita num tom muito agressivo "All'right you motherfuckers! Everyone on the ground and stay there!" Perto deste local outro carro da polícia também pára, assim como outro carro que aparenta ser de alto custo, saindo de dentro deste um ser de camisa e óculos escuros com ar de agente secreto ou qualquer coisa do género. Poucos segundos após isto, são poucos os manifestantes que conseguem escapar à polícia e, algum tempo decorrido, termina a acção desta prolongando-se, no entanto, os sons das sirenes durante alguns minutos pela zona de East Village.

Algum tempo decorrido e algumas pessoas juntam-se em torno de um dos cruzamento da zona. Ao que parece alguns manifestantes ainda estão a ser detidos. Um deles ao ser levado para a carrinha, é seguido por um polícia que lhe aponta e encosta à cara uma câmara de filmar.

São detidos aparentemente então os últimos manifestantes e a polícia não abandona o cruzamento enquanto um dos seus elementos filma quem se junta à volta deste. As várias pessoas que concentram na zona apelam à libertação dos activistas detidos.

Decorre uma boa quantidade de tempo até a polícia dar a ordem para dispersar ameaçando prender quem continuar na zona. No decorrer da dispersão, a polícia ainda prende pelo menos uma das pessoas, mais uma vez de forma brutal, talvez por troca de palavras ou, como foi dito, por ter parado por um momento em frente a esta depois da ordem de dispersar.

Mais tarde, no mesmo dia, é feita outra manifestação ilegal sob o lema da Libertação da Terra e Animal, onde é partido um vidro de um prédio onde se afirmava habitar um importante dirigente de uma corporação e onde são presas também uma enorme quantidade de pessoas numa manifestação que era também ilegal.

Da que começou em St. Marks, o número total de presos terá sido 87. Isto numa manifestação no decorrer da qual aparentavam estar cerca de 100 pessoas.

No fim deste dia, à noite, uma pequeno grupo de pessoas junta-se numa das prisões para onde foram levados algumas das pessoas detidas em solidariedade com estas. A manifestação de solidariedade terminaria com a polícia a rodeá-la e a seguir os manifestantes até dentro da estação de metro até estes embarcarem num dos comboios.


Dias seguintes

No dia seguinte realiza-se uma pequena concentração à porta de uma das prisões onde são libertadas algumas das pessoas detidas. No decorrer desse mesmo dia, alguns activistas são levados a tribunal e soltos após breve julgamento ou adiamento deste. As audições prolongam-se pelo dia seguinte e o último manifestante é solto já depois das 3 da manhã. As acusações para os manifestantes presos em East Village são do mais ridículo que se conhece: "unlawfull assembly" (assembleia ilegal), "disorderly conduct" (conduta desordeira) e "parading without a permit" (desfilar sem autorização), isto para além da acusação de que são alvo alguns dos manifestantes presos na grande manifestação de sábado que, por tradição nos EUA, cada manifestante recebe de cada vez que é alvo de violência policial: "assault" (que pode ser traduzido por qualquer coisa como: ataque à polícia). Soltos os manifestantes chegam os relatos da brutalidade com que estes foram presos.


Cá fora, durante esse período, um grupo dedica-se exclusivamente ao seguimento dos casos e apoio aos activistas detidos. Trata-se do "People's Law Colective", um grupo anarquista de apoio legal que apoiou todos os manifestantes detidos, e que de forma bela, deu mais uma vez significado à palavra solidariedade.

Fernando Negro & Sigoma, pela Frente de Libertação Anarquista de Nova Iorque - Brigada Internacional