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NOTAS DO TRADUTOR

1- O autor tem perfeita razão ao afirmar que o individualista é o anarquista de base. E compreende-se. Antes de alguém envergar a roupagem mutualista, coletivista ou comunista (libertária) tem que partir do princípio que o indivíduo é a única realidade viva, contraditória mas formada por partículas quimicamente solidárias, caso contrário decompõe-se e morre, e socialmente irredutível, sem sucedâneo possível. Cada indivíduo é um mundo (um mundo com os seus sonhos, desejos, atrações, repulsões, recalcamentos e desinibições)... e é único... e é sempre a partir desta pluralidade de unicidades que temos que nos entender. Todo o indivíduo consciente reage violentamente contra qualquer esquema totalizante, com pretensões a sistema, e contra qualquer nivelamento uniformizador feito autocraticamente de cima para baixo ou à custa da sublimação individual. Sabe que não é nem mais nem menos que quem quer que seja e não precisa de se afirmar em detrimento de ninguém, nem de se anular em nome de altos valores que se alevantem. Claro que sabe quais são os limites das suas forças e que um homem sozinho, coitadinho, não faz farinha... O individualista anarquista, porém, nada tem que ver com o tema romântico do «homem só», ótimo para a masturbação ou para quem gosta de chorar sobre a sua triste sorte, nem se toma por nenhum Robinson Crusoé. Pelo contrário, é uma autêntica «máquina» ávida de relações imediatas com o meio ambiente onde se desenvolveu, é um belo animal sedento de relações não mediatizadas com os seus afins. A sociabilidade constitui uma das características inalienáveis da sua individualidade.

No combate contra os socialistas e comunistas autoritários e reformistas, bem como contra os filósofos marxistas em geral, foram os anarquistas individualistas os que melhor mostraram a falácia duma ideologia que oprime os indivíduos concretos em nome das abstrações mais aberrantes (ditadura do proletariado, fase inferior e fase superior do comunismo, Estado popular ou proletário, etc.) e das imposições societárias mais absurdas (a igualdade na servidão, as batalhas da produção, a sociabilidade forçada, o sorriso optimista e dentífrico, o fabrico em formato reduzido do homem-massa, etc.). Pudessem certos sindicalistas revolucionários e anarco-sindicalistas que, como Pierre Monatte em França ou José de Sousa em Portugal, se deixaram embarrilar pela iconografia oficial da Revolução Russa e forneceram em boa dose alguns dos mais altos dirigentes da primeira geração de pecês, apresentar a mesma folha de serviços!

Quanto ao egoísmo de Stirner, talvez não seja descabido dizer ao leitor menos iniciado nestas lides que até o altruísta mais sincero, ao sentir prazer na felicidade honesta de outrem e ao considerar a liberdade dos outros como uma confirmação da sua liberdade, é um egoísta. O seu egoísmo, claro está, não se confunde com o egoísmo boçal do capitão de indústria que se coça para dentro, explora a mão de obra assalariada e diz depois que criou generosamente novos postos de trabalho, nem com o «altruísmo» farisaico do homem público que faz promessas e dá grandes palmadas no rabo do corpo eleitoral. É uma forma mais nobre, genuína e lúcida de egoísmo, se quisermos, um caso em que o egoísmo da lucidez mal encobre a lucidez do egoísmo.

Partindo desta reflexão, compreende-se bem porque Stirner falava pejorativamente da sociedade (com ou sem classes, como hoje se diria) e a considerava uma verdadeira maldição para o indivíduo autêntico e rebelde. Não porque fosse um anti-social nato, inimigo dos homens seus irmãos, ou um Jack-o-estripador congênito, ou qualquer outra baboseira digna do criminologista Lombroso, tão só porque a sociedade tem tendência para esquecer as suas modestas origens inter-individuais e para se arvorar em entidade superior, em juiz supremo e supremo carrasco dos atos humanos. Por isso, Stirner preferia-lhe a palavra associação, reveladora doutra dinâmica e doutras relações sociais. E quem diz associação, por que não diria «associação de egoístas»?

2- Alguns inimigos do anarquismo, porque este parte sempre do individual para o geral, não acha que a humanidade pode ser feliz, se os homens que a «compõem» forem desgraçados como as pedras do caminho, e não decreta demagogicamente o reino milenário, tiveram tendência para o considerar «pequeno-burguês», particularista, inimigo das soluções genéricas e do bem comum. Proudhon, alvo ideal para este epíteto insultuoso, foi todavia um grande analista das linhas mestras do devir das sociedades, um grande e original pensador que analisava a complexidade e a variedade das estruturas sociais, sem as hierarquizar nem falar em infra e superestruturas. O seu impacto foi grande em quase todos os países latinos e inúmeros foram os operários autodidatas que se sentiram influenciados pelo realismo das suas conclusões.
Entre os próprios anarquistas, lá porque Proudhon está ligado às origens dum ainda incipiente proletariado, industrial moderno e evita ser demasiado categórico na escolha dos seus sujeitos históricos, também há um tanto ou quanto tendência para considerar algumas das suas originalidades como tibiezas, as quais teriam sido depois superadas por Bakunine, Kropotkine e outros seguidores mais «radicais».

Na realidade, Proudhon merecia ser de novo estudado. Não é um acaso, se ainda hoje é um dos autores anarquistas mais raivosamente atacados pelos defensores dos mais variados totalitarismos. É que a sua interpretação do devir histórico não é redutível a uma banal dialética bipolar, a maneira como diz que a síntese é sempre reacionária e está sempre do lado da autoridade choca os mais convencidos defensores dos «progressos» do poder, e o modo como, enfim, especifica que a política e o trabalho se opõem e excluem desmascara os partidários das emancipações ilusórias e politicantes. Em face do fiasco do capitalismo monopolista, do comunismo de Estado, da pessegada do socialismo democrático e da social-democracia, do marxismo determinista e do leninismo hirsuto, a sua atualidade parece ser de novo grande. Os próprios pensadores anarquistas que se lhe seguiram nem sempre o superaram e, por vezes, quando o fizeram, nem sempre foi na direção desejável. Ainda hoje, Proudhon parece freqüentemente menos contaminado por certos germes e taras do ulterior movimento operário do que muitos dos seus continuadores. É vermos as três criticas correlativas que faz à autoridade (o misticismo ou adoração do homem pelo homem, o estatismo ou governo do homem pelo homem, o capitalismo ou exploração do homem pelo homem), a maneira como nos diz que tal tríade na prática desemboca no «unitarismo absolutizante» e na «ideomania autoritária», as conclusões a que chega quando expõe que a emancipação política e a emancipação econômica são uma só, a análise que faz do trabalho integrador, das forças coletivas e da mais-valia... Sem esquecermos, evidentemente, que as suas conclusões sobre o «realismo social» e o «pluralismo social», bem como as suas análises dos meandros da propriedade, são das mais finas e adequadas, mais do que nunca susceptíveis de interessarem quem hoje se debruça sobre aquilo que dá modernamente pelo nome de autogestão.

3- Podíamos ainda acrescentar a estas correntes o «anarquismo de conselhos», também conhecido por conselhismo ou comunismo de conselhos. Também teve defensores entre certos marxistas dissidentes, mormente os «esquerdistas» holandeses, italianos e alemães como Pannekoek, Bordiga, Ruhle ou Gorter. Uma diferença, no entanto, salta logo aos olhos: os marxistas conselhistas tiveram sempre tendência para verem nos conselhos órgãos de poder, uma espécie de «autogestão do poder», na melhor das hipóteses. Viam na nova teoria a única hipótese para deslocarem a famigerada ditadura do proletariado do Partido de tipo leninista para os Conselhos. A moderna corrente dos marxistas situacionistas chegou mesmo ao ponto de ver nos conselhos a única forma de «ditadura anti-estatal do proletariado» e na 7a conferência sobre a definição mínima das organizações revolucionárias mencionou como objetivo da luta final «a realização internacional do poder absoluto dos Conselhos Operários». Não discutimos sequer sobre a possibilidade duma «ditadura anti-estatal» (o que será ?), nem nos pronunciamos sobre fórmulas que corrompem absolutamente como, por exemplo, «poder absoluto». São reveladoras da supracitada ideomania. Basta dizermos que os anarquistas nunca viram nos conselhos órgãos de poder. Apesar de sempre os terem defendido veja-se o caso dos anarco-sindicalistas russos , achavam que os conselhos não resolviam o problema do poder até ao fim, tinham tendência para subalternizar os consumidores que somos todos nós, continuavam a comungar naquilo a que podemos chamar a «religião do trabalho», além de, com uma facilidade demasiado grande, poderem degenerar em pequenos parlamentos plebeus ou proletários, flutuando ao sabor das maiorias.

Fornecendo alguns breves elementos à história da idéia, digamos que é antiga. Já na Federação Regional espanhola da 1ª Internacional se falava de «buntos» ou de «consejos de trabajo». Voline, na obra «A Revolução desconhecida», conta como apareceu o primeiro Soviete (conselho, em russo) em 1905 e até mesmo como foi convidado para seu presidente, no seguimento do movimento gaponista. Diga-se ainda que a insurreição de Kronstadt, último soviete livre da Rússia bolchevista, em 1921, foi em grande medida preparada pela propaganda e agitação anarquistas efetuadas por altura da morte de Pedro Kropotkine. Muitos anarquistas bateram-se e morreram em Kronstadt, além de que, na esteira de Ida Mett, Rudolf Rocker e outros, foram os anarquistas os primeiros que deram a conhecer no Ocidente esse crime desconhecido de Leão Trotsky.

Foi, porém, na guerra civil espanhola (1936-1939) que os conselhos operários e camponeses (em Espanha chamados «coletividades») atingiram o máximo expoente. Segundo a formosa e insuspeita maneira de dizer dos marxistas situacionistas, foram enfim na prática o que noutros sítios só tinham podido ser em idéia. Se não nos esquecermos que a Espanha era a terra de eleição da prática anarquista, do espírito libertário e das táticas do anarco-sindicalismo (e que foi isso que realmente impossibilitou a intromissão em maior escala dos partidos políticos, dos sindicatos reformistas e dos outros burocratas sabotadores), então não podemos deixar de concluir que entre conselhos, comités de fábrica e anarco-sindicalismo as diferenças são mínimas sem prejuízo da finalidade e especificidade de qualquer deles.

4- Nas sociedades ditas primitivas, a produção não revestia o aspecto mercantil que tem na sociedade capitalista. Os objetos não apresentavam a forma alienada de mercadorias, ao mudarem de mão criavam vínculos e obrigações de ordem pessoal e como que tinham «alma». Já existiam as trocas diretas e mais ou menos igualitárias entre indivíduos ou entre grupos mas o dom com a sua obrigação de reciprocidade encontrava-se largamente em vigor e desempenhava um papel social importante.

O antropólogo Bronislaw Malinowski, na obra «Os Argonautas do Pacífico ocidental», fala-nos de uma forma de dom: a kula, que tinha aspectos cerimoniais e punha em circulação braceletes e colares. Se os parceiros da kula fossem demasiado calculistas e a conduzissem como um gimwali (troca mais ou menos usurária), desacreditavam-se socialmente e passavam por uns unhas de fome.

E Marcel Mauss, no «Ensaio sobre o dom», fala-nos do potiatch. Segundo esta forma de dom, o indivíduo que recebia ofertas devia ripostar com dádivas de valor superior ao que lhe era dado. Certas tribos índias chegavam a arruinar-se em longos potlatch de Inverno. O esbanjamento dos bens chegava até a revestir a forma destrutiva da liquidação de tudo o que estava armazenado. E Mauss escreve: «Felizmente, ainda nem tudo está classificado exclusivamente em termos de compra e de venda. As coisas ainda têm um valor de sentimento, além do valor venal, se é que há valores que sejam unicamente deste gênero. Não temos apenas uma moral de mercadores. Restam-nos pessoas e classes que ainda têm os costumes de outrora e diante deles inclinamo-nos quase todos, pelo menos em certas épocas do ano ou em certas ocasiões».

Por que não voltaria o dom, construtivamente considerado e não com o caracter de delapidação infantil do potiatch, a emergir como regra informal da sociedade do futuro?

5- A palavra portuguesa "trabalho" é derivada da latina tripalium, que designava um instrumento de tortura. Esta filiação etimológica diz tudo. Sobretudo se tivermos em vista as pessoas pouco recomendáveis que sempre aconselharam o trabalho como terapêutica (para os outros!). E pensamos em Hitler e no «Arbeit macht frei» («O trabalho liberta»), encimando o grande portão de ferro do campo de concentração de Auschwitz; ou em Staline com as mãos cheias de medalhas para os «heróis do trabalho», os incansáveis stakhanovistas minados pela silicose; ou no papa João Paulo II com as encíclicas laborais ao alcance do gatázio, as viagens ao cerne da miséria brasileira ou da piolheira filipina, as exortações à pachorra ou à fossanguice e o ânus artificial, depois dos tiros que apanhou... A lista dos filantropos teria mais nomes do que quantos ladrões tinha o pinhal da Azambuja.

Considerando que o trabalho assalariado e a divisão hierarquizada do trabalho se contam entre as maiores degradações do homem, a humanidade «trabalhada» deve libertar-se da maldição bíblica do trabalho e comer o pão com outro condimento que não o suor do rosto. Algumas mentes peregrinas, porém, filhas do robot e do computador, em geral oriundas do marxismo autoritário e cada vez mais deliquescente, gostariam de acabar com o trabalho de qualquer maneira, em termos totalmente irrealistas, e de impor um modelo único de madracice tão estúpido como o trabalho. E, derradeira esperteza, aconselham o novo tratamento apenas para as míticas e abstratas «sociedades de abundância», tecnologicamente sofisticadas, onde a «acumulação primitiva» já estaria feita. Esquecem-se, em primeiro lugar, que a abundância é sempre relativa. É um termo de economista ou de merceeiro que não toma em consideração nem as necessidades reais (não as forjadas pela publicidade), nem os recursos efetivamente disponíveis (não as mercadorias empilhadas). Assim, e por paradoxal que pareça, as sociedades da Idade da Pedra, como observa Marshal Sahlins, foram as primeiras sociedades de abundância. Os «primitivos» dispunham do que queriam com poucas horas de atividade, que nem consideravam trabalho. E recusavam-se a acumular por acumular um sobreproduto qualquer, à custa do sobretrabalho, como sublinhava Pierre Clastres. Preferiam ornamentar-se com penas, participar em campeonatos sexuais ou sornar tranquilamente. Ao invés, certas sociedades tecnologicamente mais maquinais podem vir a ser sociedades de penúria, com o esgotamento de certos recursos não renováveis e com o real problema da explosão demográfica. Em segundo lugar, ao expulsarem do paraíso da abundância e do direito à preguiça vastíssimas zonas e extensos setores do populacho, e ao preconizarem para eles a «socialização da miséria», dão uma magnífica caução a todas as ditaduras terceiro-mundistas, estalecas, etc. Pois se não se podia ir mais longe, como diria o paizinho Staline coçando a bigodeira...

Nós, que não somos fatalistas, nem temos o mito provinciano da máquina 100% ao serviço do homem e deste 100% ao serviço do ócio, pensamos de maneira quiçá mais cientifica, como soe dizer-se, que pode haver um trabalho lúdico, que tem que haver uma organização imparcial para as tarefas ingratas ou monótonas, que pode haver uma distribuição livre para os bens exuberantes, que tem que haver regulamentação para partilhar os produtos escassos e combater a escassez, e que mesmo sociedades menos desenvolvidas não estão ao abrigo duma revolução radical.

6- Os anarquistas compreenderam desde sempre que não se pode construir um mundo novo a sério conservando o exército, a polícia, a magistratura, as casernas, as prisões e outras respeitadas e veneradas instituições. Sabem que a Revolução Francesa começou com a tomada da Bastilha, em 1789, e que a Revolução Espanhola de 1936 pôs todos os presos na rua, nas zonas controladas pelos revolucionários . A famosa «Coluna de Ferro», que tão bem se bateu contra fascistas e stalinistas e tanto resistiu contra a militarização das milícias, que tanto tempo esteve na vanguarda do combate real e não na retaguarda das sinecuras e das prebendas, era constituída em parte por ex-presos comuns do presidio de San Miguel de los Reyes.

Em Portugal, durante a vigência dum nacional-cristianismo soez, cimentou-se a tendência para dizer que a P. I. D. E. era a única policia má, enquanto a Judiciária, a G. N. R., a P. S. P. e tutti quanti seriam boas e honradas corporações. Paralelamente, considerava-se o preso político, o aristocrata aperaltado do elegante crime político, como o único bicho de todo o bestiário prisional digno da liberdade. Ora, na nossa opinião, o dito bicho era tantas vezes preso apenas por distribuir panfletos rotineiros e não por se inspirar na propaganda pelo acto ou na acção direta...

Em 1975 (ou 1976), vários grupos anarquistas de Lisboa, num pequeno manifesto intitulado «Destruamos todas as Bastilhas», reataram com a tradição libertária, solidarizaram-se com os presos comuns e declararam que o combate destes era o deles porquanto, dentro ou fora das grades, o mundo em que sobrevivemos tem tendência a assemelhar-se a uma prisão. No mesmo sentido, a C. N. T. e os grupos anarquistas espanhóis, já depois da morte de Franco sem dúvida o maior assassino espanhol deste século, que morreu tranquilamente na cama e nunca foi parar à cadeia, foram as únicas organizações que promoveram campanhas e gritaram: «Os presos para a rua! Políticos também!»

7- O anarquismo é a única corrente revolucionária claramente pluralista. Para desfazermos qualquer equívoco, digamos que o pluralismo não é a existência de 2, 3, 4 ou mais partidos democratóides tirados a papel químico, como o pretende o discurso democratolas dos políticos da nossa praça. O pluralismo autêntico é a coexistência e o equilíbrio entre centenas ou milhares de diferentes formações sociais, autônomas ou unidas por laços federalistas e não por imposição de qualquer forma de poder, central ou local. A grande referência sobre o relativismo dos «modelos» é, evidentemente, Proudhon.

8- Os «anarquistas reformistas», se é que não há contradição entre o substantivo e o adjetivo, devem ter sempre presente que há, houve e haverá uma diferença qualitativa entre reforma e revolução. Não se passa daquela para esta por meio de simples acréscimos de quantidade ou por pirueta dialética a menos que se considere revolução um conjunto de reformas concedidas pelo Estado!

Os «anarquistas revolucionários», se é que não há aqui petição de princípio ou pleonasmo e se o adjetivo não é redundante, não pretendem economizar esforços quando se trata da revolução e não pretendem substitui-la por uma hipotética evolução. Todos os dias a preparam e sabem que haverá grandes sacudidelas no edifício social. O que é preciso é que não haja apenas, como diz a fórmula matreira, «revolução» no quotidiano de 2 ou 3 gatos...

9- Sem que a lista seja exaustiva, podemos ainda dizer que a agitação anarquista foi eficaz nos seguintes casos: em Portugal, entre 1909 e 1919 (período de criação da União Operária Nacional) e, depois, nos anos que se seguiram a 1919 (período do funcionamento da Confederação Geral do Trabalho); na Bulgária, durante longos períodos de luta contra o Império Turco, durante a ditadura fascista dos anos 1923 e seguintes e, mais tarde, durante os episódios de resistência da segunda guerra mundial; na América latina, muito especialmente na Argentina, sobretudo nos anos 20, e também em países como o Brasil, Cuba, etc.

Nos últimos anos, a agitação anarquista recrudesceu. Em Espanha, logo a seguir à morte de Franco, a C. N. T. reapareceu, bem como um forte movimento específico. Pode-se mesmo dizer que a organização anarco-sindicalista efetuou de novo os maiores comícios que a Espanha conheceu desde a guerra civil. Apesar das divisões e dos rancores entre facções acumulados no exílio, o movimento espanhol deve ser de novo o maior movimento anarquista do mundo. Na Grécia, a seguir à queda do regime dos coronéis, despontou um novíssimo movimento com certo impacto no meio da juventude, novíssimo já que se trata dum pais que não tem a tradição libertária doutros. Na Holanda, onde o movimento anarquista dinamizava habitualmente a agitação antimilitarista, a agitação dos Kraakers (ocupantes de casas devolutas, no meio dos quais há muitos libertários) veio abrir novos horizontes e possibilidades. Quanto aos países de Leste, se bem que nos faltem mais informações, há elementos que apontam para um recrudescimento de atividades na União Soviética e na China.


10- Em tempos, houve a grande moda das comunidades. O próprio Júlio Verne descreve-nos o fenômeno em «Os náufragos do Jonathan» ou noutras obras. Como não podia deixar de ser, foram inúmeras as experiências anarquistas nesse campo, visto que o anarquismo, mais do que um conjunto acabado de teorias, é sobretudo um conjunto espantoso de experiências. Salientemos apenas duas das mais conhecidas e importantes: a Colônia Cecília, no Brasil, fundada por Giovani Rossi e pelos seus amigos, em 1890; a Comunidad del Sur, no Uruguai, fundada em Montevideo, em 1955. Ambas mostraram a sua viabilidade, mas foram destruídas por ditaduras militares.

Hoje os anarquistas acham que essas experiências têm pouco alcance prático e que o mundo exterior as deixa cinicamente crescer, até ao momento em que decide corrompê-las aos poucos, ou sufocá-las rapidamente: ou tudo é autogerido, ou nada o é. Certos grupos ecológicos, macrobióticos, feministas, homossexuais, etc. parecem contudo persistir em tal via assaz inglória. Idealizam a natureza, retiram-se da circulação, isolam-se, fecham-se no casulo... e são perfeitamente inofensivos. Mas quem corre por gosto, não cansa...

11- Sem esquecermos a Checoslováquia de 1968, a Polónia de 1970-71, 1976, e, de novo, de 1980-81