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Clichy-sous-Bois:
Zona de Sem-direitos
ou Zona de Injustiças?
Um testemunho em resposta
a uma série de mentiras
Antoine Germa
Eu estive intermitentemente em Clichy desde o sábado
pela manhã, trabalhando com um repórter da France-Inter
numa série de reportagens sobre a situação
em Clichy-sous-Bois. A cidade esteve “em chamas” da
noite de quinta-feira 27 de Outubro até à noite
de segunda-feira 30 de Outubro. Eu estou a escrever o que eu vi,
ouviu, compreendi, e me foi contado.
1
- Dois adolescentes mortos (Zyad e Bounna, 17 e 15 anos de idade,
do Colégio Nº 3) parecem ter sido realmente perseguidos
pela polícia, ao contrário da versão oficial
que negou que tenha havido alguma perseguição (a
versão de Sarkozy/Parquet). Por que outro motivo teriam
eles fugido para um beco e escalado aquele muro para se esconder
num transformador da EDF, quando o seu bairro não se encontrava
longe do local da tragédia?
2
- Os jovens, uma dezena deles, que estavam jogando futebol, fugiram
de um controlo policial porque alguns deles não tinham
documentos (entre estes encontrava-se o terceiro jovem electrocutado,
Metin, que estava no processo de ter a situação
dele regularizada). Eles nunca estiveram envolvidos em qualquer
roubo na área, como alega a versão oficial, mas
isso não impediu que estas alegações fossem
repetidas pelo Primeiro-ministro Dominique de Villepin na quinta-feira.
Já ninguém apoia estas alegações,
e mesmo o promotor de Bobigny reconheceu no sábado que
se tratou tudo de um simples caso de controlo de identidade. Aliás,
os jovens interpelados foram soltos no espaço de uma hora,
o que mais prova que a polícia não tinha nada contra
eles. Metin, sofrendo de queimaduras graves, “não
se lembra de nada” de acordo com a versão oficial…
estará este silêncio ligado ao estatuto legal dele?
3
- Todo o género de rumores começaram a circular
pelo bairro: Por que está polícia a mentir? O que
estão escondendo eles? Os motins rebentaram espontaneamente
na Quinta-feira, na Sexta-feira eles foram reforçados pelos
“mais velhos”. Os primeiros objectivos foram: os correios
(muitos carros foram queimados), o posto de bombeiros (um camião
destruído), os abrigos de autocarros, uma escola (deitaram-lhe
fogo). Os motins tornaram-se particularmente violentos na Sexta-feira
(com pessoas lançando pedras, bombas incendiárias
e disparando contra os carros de policia e da CRS) Isto aconteceu
nas grandes avenidas que atravessam o bairro de Chene Pointu (perto
de Pama). Muitos carros foram incendiados e as suas carcaças
queimadas ainda juncavam as ruas no Sábado de manhã.
No
Sábado pela manhã, houve uma marcha silenciosa organizada
por associações religiosas e pelas mesquitas. Era
a hora dos apelos para a calma. Os olhos voltaram-se para a justiça
e não se pouparam criticas ao Ministro de Segurança
Pública Nicolás Sarkozy. As instituições
muçulmanas, os responsáveis da Câmara Municipal
[mairie] e os militantes associativos estavam visivelmente unidos,
e pareciam ter a situação sob controlo. Podia-se
contar um pouco mais do que mil participantes. Visivelmente cansado
e emotivo, o Presidente da Câmara [maire] Socialista de
Clichy, Claude Dilain que parece desfrutar do real apoio da população
de Clichy, inclusive os jovens, fez um pedido oficial a Sarkozy
para abrir uma investigação sobre as mortes dos
dois adolescentes. Por seu lado, o advogado das famílias
das vitimas, á saída de uma reunião que teve
lugar na prefeitura após a marcha, anunciou que iria apresentar
uma queixa por não assistência a pessoas em perigo
[contra a policia], para que se esclarecessem as circunstâncias
nas quais os jovens morreram. Tudo continuou calmo naquele dia
e a policia não foi vista em parte alguma.
Na
noite de sábado, quando o jejum [do Ramadão] foi
quebrado (por volta das 18:30), 400 gendarmes e agentes da CRS,
incluindo alguns vindos de Chalon-sou-Saone , apareceram no bairro
e espalharam-se por toda a parte. Como de costume, tratava-se
de cercar, “de fechar” o bairro. Um quixotismo policial:
em filas cerradas, á moda dos legionários romanos,
em passo de corrida, viseiras baixadas, escudo no braço
e flashball na mão, eles percorreram as ruas uma a uma
[lutando] contra inimigos invisíveis. A esta hora toda
a gente está a comer e ninguém sai para a rua. Porquê
uma tal demonstração de força quando as ruas
estavam particularmente calmas? “Provocação
policial” respondem em uníssono todos os habitantes
a quem eu perguntei. Este tem sido um tema recorrente [leitmotiv]
desde sexta-feira à noite.
Ao
fim de uma hora, alguns jovens saem para a rua e juntam-se em
frente à polícia: todos esperam pelo começo
dos confrontos. Que sentido dar a esta estratégia policial
á parte daquele que consiste em querer “marcar o
seu território”, que é como quem diz, aplicar
uma versão animal e musculada do “regresso á
ordem republicana”? Diversos testemunhos e gravações
em video mostram igualmente, de maneira indiscutível, que
a polícia quis provocar os jovens para a violência
(insultos racistas, desafiando-os a lutar, bravatas...).
Eu
fui para a mesquita de Bousquets às 21 horas: ela estava
a rebentar pelas costuras de tão cheia (cerca de 1200 a
1300 pessoas), porque hoje era a Noite de Destino, que os fiéis
passam tradicionalmente na mesquita. Vários carros e caixotes
do lixo já tinham sido queimados, e os jovens vieram buscar
refúgio neste santuário no meio do bairro. Não
obstante, reinava um ambiente de contemplação solene,
e desde o princípio que os Imans tiveram um papel importante
na pacificação.
De
qualquer maneira, e apesar das provocações policiais,
os afrontamentos pareciam ser menos violentos na noite de sábado.
Será isto devido aos apelos à calma que tinham sido
feitos desde a manhã? Seria isto devido à importância
ritual da Noite de Destino neste período do Ramadão?
4
- No domingo à noite, em jeito de testemunho, eu recebo
um telefonema enfurecido e desesperado de Ibrahim, o filho de
um Iman: eram 22:55 quando a policia veio, durante a oração,
atacar com gás a mesquita de Bousquets. Algumas mulheres
- que estavam na área da mesquita reservada para elas -
quase desmaiaram, dizia-me ele. E enquanto elas saíam da
mesquita, as forças da ordem insultavam-nas: “puta,
porca…”, continuava ele. Tentar falar com a polícia
provou-se inútil, e aos que ousaram tentar era-lhes respondido
“degage” [“baza ”], e arriscavam-se ainda
a serem feridos com uma flashball. O Ibrahim pede-me para testemunhar,
mas eu não estou em Clichy nesta altura.
Esta
notícia parece incrível. Como podem eles atacar
um lugar de culto? Porquê gasear a mesquita quando as autoridades
religiosas são as únicas, juntamente com o Presidente
da Câmara, capazes de acalmar a situação?
Desde de então, o braseiro ameaça ficar mais rubro
do que nunca, os afrontamentos recomeçam, e mais carros
são incendiados: as posições ficam ainda
mais radicais desde que as forças da ordem negaram o uso
de gás lacrimogéneo na mesquita. O modelo de granada
usado contra os fiéis da mesquita não corresponderia
ao que a policia usa. Doravante, há dois casos: as mortes
dos adolescentes e o ataque na mesquita.
É
nesta altura que Sarkozy aparece na televisão defendendo
e justificando as acções da policia em Clichy, uma
vez mais invocando a «tolerância zero»: numa
mão, o punho de ferro, na outra… nada, à parte
da mão invisível do mercado.
5
- Segunda-feira pela manhã: o humor está tenso.
Às 11 horas, Sarkozy reúne-se na perfeitura com
as forças da ordem: dá-lhes os parabéns dele
e promete apoio. A versão oficial sobre o ataque com gás
na mesquita sofre uma alteração durante noite. O
modelo de granada usado realmente corresponderia ao usado pelas
forças da ordem, mas a dúvida persiste: quem teria
lançado essas granadas na mesquita? Uma vez mais, a versão
oficial não parece corresponder em nada com a verdade.
Às
13 horas, eu vou a Chene Pontu para ver o telejornal com um Iman
e a sua família: o tratamento mediático destes eventos
está no centro do ressentimento sentido por muitos desde
o princípio dos motins. A impressão que domina todas
as discussões aqui é que os media não passam
de correias de transmissão [relais] das instituições
oficiais, espalhando mentiras e, acima de tudo, ajudando a criar
o estigma de que se sentem vitimas os habitantes destes bairros
populares.
Portanto,
o tom muda: a imprensa e os canais de televisão fazem-se
mais críticos. Eles começam a questionar a versão
oficial sobre a morte dos dois jovens e o ataque com gás
á mesquita é posta em causa, ou pelo menos interrogada.
Às
14 horas, há uma conferência de imprensa na mesquita
de Bousquets. Um vídeo do ataque feito a partir da camara
de um telemovel serviu de prova. Ele é projectado frente
a numerosos repórteres: ele mostra o pânico que tomou
os fiéis durante o gazeamento.
Depois,
os responsáveis tomaram a palavra. O tom é firme,
a emoção palpável e as exigências precisas:
um inquérito judicial e desculpas oficiais. A igualdade
de tratamento entre os diferentes cultos está no centro
das reivindicações.
O
Sr. Brouhout, presidente de mesquita, pessoa próxima do
UMP [Union pour un Mouvement Populaire: o partido de direita a
que pertence o ministro Sarcozy] tornou-se mesmo ameaçante
quanto à sua capacidade de pacificar os espíritos.
O irmão mais velho de Bouna, falado para a imprensa, anuncia
que se recusa a encontrar-se com Sarkozy, julgado “incompetente”,
e pede, juntamente com a família de Zyad, uma reunião
com o Primeiro-ministro. Todos pedem que a polícia abandone
o bairro, condição necessária para encontrar
um pouco de calma e pacificar a situação.
Ao
redor desta entrevista colectiva, os militantes associativos realçam
as causas socio-económicas por detrás destes eventos,
ocultadas com demasiada frequência. Clichy é uma
das comunas mais pobres da França e as associações
têm cada vez menos dinheiro com que trabalhar. O ambiente
é tenso à saída da mesquita: os jovens juntam-se
em torno do lugar de culto. As mulheres contam aquilo que viram
e sofreram: no centro de todos os testemunhos nota-se a cólera
contra a polícia, que multiplica as intervenções
“musculadas”, em desprezo do bom senso e, frequentemente,
da lei: e contra as autoridades ministeriais que não condenaram
o ataque de gás contra a mesquita de domingo à noite.
As autoridades religiosas, visivelmente abaladas e esmorecidas
pelo que aconteceu ontem à noite, retomam pouco a pouco
o controle da situação. Toda a gente espera pela
noite com apreensão.
Ás
19 horas, representantes da mesquita e da prefeitura alcançaram
um acordo: alguns jovens são designados como mediadores
para acalmar os mais enervados e prevenir eventuais confrontos
com a polícia. Esta não é uma ideia nova:
alguns jovens já tinham sugerido o mesmo este sábado,
mas a Câmara não mostrou interesse. Será que
eles se sentem impotentes para encontrar uma solução
para o conflito? O método “duro”, que provou
a sua ineficácia e a sua iniquidade, encontrou finalmente
os seus limites?
23h30:
a polícia e os jovens brincam ao gato e ao rato, mas a
situação parece sob controlo. No terreno, os mediadores
desempenham um papel essencial, dizem-me: eles vão ao encontro
dos mais jovens para falar com eles, para dissuadi-los de passar
à acção. Durante a noite, fico a saber que
largaram fogo à garagem de policia de Montfermeil e que
as forças da ordem tinha procedido a algumas detenções.
Os afrontamentos [directos] tinham sido evitados.
Antoine
Germa é professor de história-geografia em Clichy-sous-Bois.
Original
em Francês
Do site francês lmsi.com - les mots sont importants
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