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O Que Queremos?

 

Enquanto anarquistas desejamos o maior grau possível de liberdade para tod@s. Pensamos que a existência dessa mesma liberdade é incompatível com a actual organização social e não pode coexistir com a exploração do homem e da natureza, com os Estados e os seus aparelhos repressivos, com os seus exércitos, polícias e prisões.

Sobre o que nós queremos já se produziu mais de um século de literatura libertária, cujo estudo é indispensável. Pensamos que o texto seguinte, extraído do livro Do Anarquismo de Nicolas Walter, é uma boa ajuda para quem quer saber o que é afinal o anarquismo.

QUE QUEREM OS ANARQUISTAS?

É difícil dizer o que querem os anarquistas, não só porque são tão diferentes uns dos outros, mas também porque hesitam em fazer propostas detalhadas para um futuro que não podem nem desejam controlar. No fundo, querem uma sociedade sem governo e tal coisa variará evidentemente de época para época e de lugar para lugar. O traço essencial da sociedade que os anarquistas querem, é que ela será o que os seus membros dela quererão fazer. Não obstante, é possível dizer o que a maioria deles gostaria de ver numa sociedade livre, lembrando nós que não há linha oficial, como de modo idêntico não há meio de reconciliar os extremos: o individualismo e o comunismo.

O Indivíduo Livre

A maioria dos anarquistas adota em primeiro lugar uma atitude libertária para com a vida pessoal e gostaria que houvesse uma escolha muito mais vasta de comportamentos pessoais e de relações sociais. Mas se o indivíduo é o átomo da sociedade, a família é a molécula e a vida familiar subsistirá, mesmo que desapareça a coerção que a reforça. Não obstante, se bem que a família possa ser uma coisa natural, não é mais necessária; uma contracepção eficaz e uma inteligente partilha das tarefas desembaraçaram a humanidade da alternativa entre o celibato e a monogamia. Um casal não é mais obrigado a ter crianças e as crianças podem ser educadas por mais ou menos pessoas do que dois pais. Pode-se viver só e contudo ter parceiros sexuais, ou viver em comunidade sem parceiros permanentes nem parentesco oficial.
Sem dúvida alguma, continuar-se-á a praticar certas formas de casamento e a maioria das crianças será educada num quadro familiar, aconteça o que acontecer à sociedade; mas poderá haver uma grande variedade de acordos pessoais no interior duma só comunidade. A exigência fundamental é que as mulheres estejam libertas da opressão masculina e que as crianças estejam libertas da opressão dos pais. O exercício da autoridade não é melhor no microcosmo familiar do que no macrocosmo social.
As relações pessoais fora da família não serão regulamentadas por leis arbitrárias ou pela competição econômica, mas pela solidariedade natural da espécie humana. Cada um de nós, ou quase, sabe como tratar outrem como gostaria que outrem o tratasse o respeito por si mesmo e a opinião crítica dos outros são bem melhores guias de educação do que o medo ou o sentimento de culpa. Adversários do anarquismo pretenderam que a opressão moral da sociedade seria pior que a opressão física do Estado, mas há um perigo bem maior: num sistema estatal, a autoridade desenfreada dos grupos de guardas, das hordas de linchadores, dos bandos de gatunos ou de criminosos emerge como uma forma rudimentar de Estado, assim que a autoridade regulamentada do Estado real falta por uma razão ou por outra. Porém os anarquistas estão em geral de acordo sobre a vida pessoal não é um problema grave. Ao fim e ao cabo, já muitas pessoas se organizaram à sua maneira, sem esperarem pela revolução nem pelo que quer que seja. Tudo o que é necessário para a libertação do indivíduo é a emancipação dos velhos preconceitos e a obtenção dum certo nível de vida. O verdadeiro problema é a libertação da sociedade.

A Sociedade Livre

A exigência prioritária para uma sociedade livre é a abolição da autoridade e a expropriação da propriedade. Em vez dum governo formado por representantes permanentes eleitos ocasionalmente e por burocratas de carreira praticamente inamovíveis, os anarquistas querem uma coordenação efetuada por delegados temporários, imediatamente revogáveis, e por peritos profissionais verdadeiramente responsáveis. Em tal sociedade, todas as atividades sociais que implicam uma organização, seriam provavelmente administradas por associações livres. Pode-se chamar-lhes conselhos, cooperativas, coletividades, comunas, comités, sindicatos ou sovietes, ou qualquer outra coisa ou título não tem importância, só a função conta.
Haverá associações de trabalho indo da oficina ou da pequena empresa aos maiores complexos industriais ou agrícolas, que se ocuparão da produção e do transporte dos bens, decidirão das condições de trabalho e farão funcionar a economia. Haverá associações regionais indo do lugarejo ou da aldeia às maiores unidades de residência, que se ocuparão da vida da comunidade habitação, ruas, saneamento, conforto. Haverá associações que se ocuparão dos aspectos sociais das atividades, como as comunicações, a cultura, os tempos livres, a pesquisa científica, a saúde e a educação.
A coordenação por meio das associações livres, em vez da administração por meio das hierarquias constituídas, terá por resultado uma descentralização extrema segundo os princípios federalistas. Tal pode parecer um argumento contra o anarquismo, mas nós afirmamos que é um argumento a seu favor. Uma das bizarrias do pensamento político moderno é pretender que as guerras são devidas à existência de pequenas nações, quando as piores guerras da história foram causadas por um pequeno número de grandes países. Do mesmo modo, os governos tentam criar unidades administrativas cada vez maiores, quando a observação mostra que as mais pequenas são as melhores. A queda dos grandes sistemas políticos será um dos maiores benefícios do anarquismo e as populações locais poderão voltar a ser entidades culturais, enquanto as nações desaparecerão.
A associação encarregada de toda a espécie de riqueza ou de bens terá a grave responsabilidade quer de garantir que sejam honestamente repartidos entre as pessoas componentes da comunidade, quer de guardá-los em propriedade comum e de garantir que o seu uso seja honestamente repartido entre as pessoas interessadas. As soluções anarquistas variam e as dos membros duma sociedade livre variarão sem dúvida também; caberá aos membros de cada associação adotarem o método que preferirem. Poderá haver uma remuneração igual para todos, ou proporcional às necessidades, ou não haver remuneração alguma. Certas associações utilizarão o dinheiro para as trocas, outras para transações importantes ou complexas, outras não utilizarão um centavo. Os bens serão comprados ou alugados, racionados ou livres. Se especulações teóricas deste tipo parecem absurdas, irrealistas ou utópicas, pense-se então simplesmente em tudo o que possuímos já em comum e em tudo o que pode ser utilizado sem se pagar.
Na Inglaterra, por exemplo, a comunidade possui algumas indústrias pesadas, os transportes aéreos e ferroviários, os barcos das carreiras e os autocarros, a rádio e a televisão, a água, o gás e a eletricidade, mas temos que pagar para utilizar tudo isso; em contrapartida, as ruas, as pontes, os rios, as praias, os parques, as bibliotecas, os terrenos de jogos, as casas de banho públicas, as escolas, as universidades, os hospitais e os serviços de pronto socorro não são apenas propriedade comum, como são também serviços gratuitos. A distinção entre propriedade privada e propriedade comum e entre o que se pode utilizar pagando e o que é gratuito, é completamente arbitrária. Pode parecer natural que se possa utilizar as estradas e as praias sem nada pagar, mas não foi sempre assim e a gratuidade dos hospitais e das universidades só existe em Inglaterra desde o começo do século. Do mesmo modo, pode parecer natural que se pague pelos transportes e pelo combustível, contudo esse não será sempre o caso necessariamente e não há razão para que isso não seja gratuito.
Com certeza, todos os serviços devem ser financiados por uma espécie de impostos, mas estes não terão sempre forçosamente a forma constrangedora que têm na sociedade atual. Pode-se imaginar que os membros duma sociedade garantam sem remuneração uma grande parte dos serviços públicos, que as contribuições sejam voluntárias ou diferenciadas (dinheiro ou outras prestações); o funcionamento dos serviços públicos depende evidentemente da partilha das tarefas estabelecida em dada sociedade.
A divisão eqüitativa ou a livre distribuição das riquezas, em vez da sua acumulação, terá por resultado o fim do sistema de classes baseado na propriedade. Porém os anarquistas também querem o fim do sistema de classes baseado no controle monopolístico. Isso implica uma vigilância constante para evitar o crescimento da burocracia nas associações e acima de tudo implica a reorganização do trabalho sem classe dirigente.

O Trabalho

As necessidades elementares do homem são a alimentação, o tecto e o vestuário, que lhe permitem sobreviver; as necessidades secundárias são algumas comodidades suplementares, que fazem com que a vida valha a pena ser vivida. A primeira atividade econômica de todo o grupo humano é a produção e a distribuição de bens que satisfazem tais necessidades; e o aspecto mais importante da sociedade depois das relações pessoais, nas quais se fundamenta é a organização do trabalho indispensável. Que pensam os anarquistas do trabalho? Em primeiro lugar, consideram que todo o trabalho é desagradável, mas pode ser organizado de maneira a tornar-se suportável e mesmo agradável (5); em segundo lugar, que o trabalho deveria ser organizado pelos que o fornecem realmente.
Os anarquistas estão de acordo com os marxistas para dizerem que o trabalho na sociedade atual aliena o trabalhador. Não é a sua vida, mas o que faz para poder viver; a sua vida é o que faz fora do trabalho e quando faz alguma coisa que lhe dá prazer, não lhe chama trabalho. É o caso da maior parte dos trabalhos que a maioria das pessoas faz, em toda a parte, e é certamente o caso duma quantidade de trabalhos que uma quantidade de pessoas fez, em todas as épocas. O labor fatigante e repetitivo que é preciso efetuar para fazer crescer plantas e criar animais, para fazer funcionar ramos industriais ou dos transportes, para proporcionar às pessoas o que desejam e para lhes tirar da vista aquilo que não querem, semelhante labor não pode ser abolido sem uma queda radical do nível de vida material; e a automatização, que pode diminuir a fadiga, aumenta ainda mais a repetição. Contudo os anarquistas afirmam que a solução não é condicionar as pessoas para lhes fazer crer que esta situação é inevitável; o que é preciso fazer é reorganizar o trabalho essencial de tal maneira que, em primeiro lugar, seja normal que cada pessoa capaz faça a sua parte e que não passe nisso mais do que escassas horas por dia; em segundo lugar, que seja facultada a cada um a possibilidade de alternar entre diferentes tipos de trabalhos aborrecidos, os quais pela sua variedade perderão um pouco do caracter aborrecido. Não é apenas uma questão de partes eqüitativas para cada um, mas também de trabalhos equivalentes.
Os anarquistas estão de acordo também com os sindicalistas para dizerem que o trabalho deve ser organizado pelos trabalhadores. Tal não quer dizer que a classe operária ou os sindicatos, ou um partido da classe operária (quer dizer um partido que pretenda representá-la) dirigirá a economia e terá o controle supremo do trabalho. Também não quer dizer, em escala mais pequena, que o pessoal duma fábrica poderá eleger o diretor ou ver as contas. Quer simplesmente dizer que as pessoas que têm uma tarefa particular controlam total e diretamente o que fazem, sem patrões nem diretores nem inspetores. Alguns trabalhadores podem vir a ser bons coordenadores e podem limitar-se a fazer a coordenação, mas não é necessário que tenham qualquer poder sobre os que fornecem o trabalho real. Outros podem ser preguiçosos ou ineficazes, porém já isso hoje acontece. Deve-se chegar a ter o maior controle possível sobre o próprio trabalho, assim como sobre a própria vida.
O supracitado princípio aplica-se a todas as espécies de trabalho tanto aos campos como às fábricas, às grandes ou às pequenas empresas, a trabalhos qualificados ou não e tanto aos trabalhos sujos como às profissões liberais e não é só uma medida útil para tornar os operários felizes, mas também um princípio fundamental para toda a economia liberta. Objetar-se-á imediatamente que o controle total dos trabalhadores levará a uma competição desastrosa entre os diversos locais de trabalho e à produção de bens inúteis; ao que se responderá imediatamente que a falta total de controle operário conduz exatamente a semelhante situação. O que faz falta é uma planificação inteligente e, apesar do que muita gente parece pensar, esta não assenta num controle mais extenso da cúpula, mas numa informação mais extensa da base.
A maioria dos economistas preocupou-se mais com a produção do que com o consumomais com o fabrico de bens do que com a sua utilização. Os homens de esquerda e de direita querem todos que a produção aumente, ou para que os ricos se enriqueçam, ou para que o Estado se reforce, e daí resulta uma «sobreprodução» vivendo paredes meias com a pobreza, uma produtividade crescente ao lado dum desemprego crescente, edifícios administrativos sempre mais altos ao lado duma crise da habitação, maiores colheitas por hectare ao lado de cada vez mais hectares por alqueivar. Os anarquistas preocupam-se mais com o consumo do que com a produção com a utilização dos bens para a satisfação das necessidades de todos, não para o aumento dos lucros dos ricos e dos poderosos.

O Necessário e o Supérfluo

Uma sociedade que tem pretensões quanto a um mínimo de decência, não pode autorizar a exploração das necessidades fundamentais. Pode-se admitir que os objetos de luxo sejam comprados e vendidos, porquanto se tem a escolha de utilizá-los ou não; mas os objetos necessários não são puras mercadorias, já que não se tem a escolha de utilizá-los ou não. Se se deve retirar qualquer coisa do mercado comercial e das mãos dos grupos monopolísticos, é certamente a terra sobre a qual vivemos, a comida que aí cresce, as casas que aí são construídas e as coisas essenciais que constituem a base material da vida humana: vestuário, utensílios, móveis, combustível, etc. Também é evidente que, quando uma coisa necessária é abundante, cada um deveria poder servir-se de quanto tem necessidade; mas, quando há falta de qualquer coisa, deveria haver um sistema de racionamento adotado livremente, de tal maneira que cada um tivesse uma parte eqüitativa. Qualquer coisa evidentemente soa a falso, num sistema onde esbanjamento e penúria vivem lado a lado, onde alguns têm mais que o necessário, enquanto outros têm falta de tudo.


Acima de tudo, é claro que o primeiro dever duma sociedade sã é eliminar a raridade dos bens indispensáveis como a falta de comida nos países subdesenvolvidos e a falta de alojamentos nos países desenvolvidos pela utilização dos conhecimentos técnicos e dos recursos sociais. Se as qualificações e a força de trabalho existente na Inglaterra ou na França, por exemplo, fossem convenientemente utilizadas, não há qualquer razão para que não se pudesse produzir comida bastante e construir casas suficientes para alimentar e alojar toda a população. Tal não é o caso hoje, porque a sociedade atual tem outras prioridades, mas não é impossível. Pretendeu-se em dada época que era impossível que cada um estivesse vestido convenientemente e os pobres vestiam farrapos; agora, dispõe-se duma quantidade de peças de vestuário e poder-se-ia também dispor duma quantidade de outras coisas.
O luxo, por estranho paradoxo, também é necessário, mas não é uma necessidade de base. O segundo dever duma sociedade sã é tornar o luxo acessível livremente, se bem que seja um domínio onde o dinheiro poderia ter ainda uma função útil, com a condição de não ser distribuído segundo o sistema ridículo dos países capitalistas, ou segundo o sistema ainda mais absurdo dos países comunistas. O problema essencial é que cada um tenha acesso livre e igual ao luxo. Mas o homem não vive apenas de pão, nem mesmo de bolos. Os anarquistas não quereriam ver todas as atividades dos momentos de ócio, intelectuais, culturais, etc., nas mãos da sociedade mesmo da sociedade mais libertária. Não obstante, há atividades que não podem ser deixadas aos indivíduos agrupados em associações livres, mas que devem ser geridas pela sociedade inteira. São os serviços sociais, o apoio mútuo para além dos limites da família e dos amigos, fora do local de habitação ou de trabalho. Examinemos três desses serviços.

A Sociedade Do Bem-Estar

A educação é muito importante nas sociedades humanas, porque o homem leva muito tempo a crescer e a aprender os atos e técnicas necessários à vida social; e os anarquistas interessaram-se sempre muito pelos problemas da educação. Vários pensadores anarquistas trouxeram contributos de valor à teoria e à prática da educação e vários reformadores da educação tiveram tendências libertárias de Rousseau e Pestalozzi a Montessori, A. S. Neill e Freinet. Idéias sobre a educação, que se julgava utópicas, estão agora integradas no ensino tanto público quanto privado e a educação é talvez o domínio da sociedade mais entusiasmante para os que querem pôr o anarquismo em prática. Se nos disserem que o anarquismo é uma idéia atraente mas inaplicável, basta-nos mostrar uma escola de vanguarda, uma turma de adaptação praticando métodos cativos, um clube de jovens autogerido. No entanto, mesmo o melhor sistema de educação continua controlado por pessoas investidas de autoridade: professores, diretores, administradores, inspetores, etc. Os adultos encarregados da educação têm geralmente tendência para controlar todas as suas formas; na verdade, não é necessário que ela seja controlada por eles, nem por razões ainda mais óbvias pelas pessoas que nada têm a ver com o assunto.
Os anarquistas gostariam que as reformas atuais do ensino fossem muito mais longe. Não se deveria abolir apenas a disciplina rígida e os castigos, dever-se-ia abolir toda a disciplina e toda a punição. Não se deveria libertar as instituições de ensino apenas do poder das autoridades exteriores, os próprios alunos deveriam ser libertos do poder dos professores e dos diretores. Numa relação educativa sã, o fato dum saber mais do que o outro não é razão para que o professor tenha uma autoridade qualquer sobre o aluno. O estatuto dos mestres na sociedade atual baseia-se na idade, na força, na experiência, na lei; mas o único estatuto que os mestres deveriam ter, deveria basear-se nos seus conhecimentos em determinado campo e na capacidade para ensiná-lo e, por fim, na capacidade para inspirarem a admiração e o respeito. O que faz falta não é tanto um contra-poder estudantil se bem que seja um útil corretivo ao poder dos professores e dos burocratas quanto um «controle operário» exercido por todos os que se sentem interessados por uma associação educativa. O problema essencial é quebrar o elo entre ensinar e governar e libertar a educação.
Esta ruptura está de fato muito mais próxima no serviço médico do que no ensino. Os médicos já não são mágicos, as enfermeiras já não são santas nem freiras; e em muitos países em particular na Inglaterra o direito aos cuidados médicos gratuitos está garantido. O que faz falta, é uma extensão do princípio da liberdade econômica ao aspecto político da medicina. Dever-se-ia poder ir em toda a parte ao hospital sem pagar e dever-se-ia também poder trabalhar nos hospitais sem hierarquia. Uma vez mais, é preciso um controle exercido por todos os trabalhadores empregados numa instituição médica. Do mesmo modo que o ensino é feito para os alunos, também os serviços médicos são feitos para os pacientes.
O tratamento da delinqüência também fez muitos progressos, conquanto ainda esteja longe de ser satisfatório. Que pensam os anarquistas da delinqüência? Em primeiro lugar, consideram que a maioria daqueles a que se chama criminosos, são como as outras pessoas, apenas um pouco mais pobres, mais fracos, mais loucos, mais infortunados; em segundo lugar, que os que prejudicam os outros vezes e vezes sem conta, não deveriam ser punidos a seu turno, mas que seria necessário que alguém tomasse conta deles. Os maiores criminosos não são os arrombadores, mas os patrões; não são os gangsters, mas os governantes; não são os assassinos, mas os que exterminam em massa. Algumas injustiças menores são amarradas ao pelourinho e punidas pelo Estado, enquanto as maiores injustiças da sociedade atual são dissimuladas e mesmo cometidas pelo próprio Estado. Em geral, a punição causa um dano maior à sociedade que o crime; é mais sistemática, está melhor organizada e é muito mais eficaz. Não obstante, mesmo a sociedade mais libertária deverá proteger-se contra algumas pessoas e isso implicará forçosamente um certo constrangimento. Porém o tratamento adequado da delinqüência fará parte do sistema educativo e curativo e não será um sistema penal institucionalizado. Como último recurso, não se imporá a prisão nem a pena de morte, mas o boicote ou a expulsão (6).

O Pluralismo

O contrário também pode acontecer. Um indivíduo ou um grupo pode recusar-se a juntar-se à melhor sociedade possível, ou pode insistir para a deixar; ninguém poderia detê-lo. Teoricamente, um homem pode prover às suas necessidades só, ainda que na prática dependa da comunidade que lhe fornece materiais e recebe os seus produtos em troca; é portanto difícil que alguém se baste literalmente a si mesmo. Uma sociedade coletivista ou comunista deverá tolerar e mesmo encorajar as zonas de individualismo. O que seria inaceitável, seria que uma pessoa independente tentasse explorar a força de trabalho dos outros, empregando-os e pagando-lhes salários, ou que trocasse produtos a preços de usura. Tal não deve acontecer, porque em condições normais não se trabalhará nem se comprará produtos em proveito de outrem, mas apenas no próprio; e da mesma maneira que nenhuma lei proibirá a apropriação, nenhuma proibirá a expropriação poder-se-á tomar o que se quiser a outrem, mas a pessoa em questão poderá retomá-lo. A autoridade e a propriedade poderão dificilmente ser reencontradas por indivíduos isolados.
Um perigo maior pode vir da parte de grupos independentes. Uma comunidade separada poderá existir facilmente numa sociedade e poderá provocar graves tensões; se regressar ao sistema de propriedade e de autoridade, o que poderá aumentar o nível de vida duma minoria, outras sentir-se-ão tentadas a juntar-se aos separatistas, particularmente se a sociedade no conjunto atravessar um período duro.
Contudo uma sociedade livre deve ser pluralista e tolerar não só diferenças de opinião sobre a maneira de praticar a liberdade e a igualdade, mas também desvios à sua teoria da liberdade e da igualdade. A única condição deveria ser que ninguém fosse forçado a aderir a nenhuma tendência contra a sua vontade e aí será necessário uma espécie de constrangimento para proteger mesmo a mais libertária das sociedades. Mas os anarquistas querem substituir a sociedade de massa por uma massa de sociedades (7), vivendo em conjunto tão livremente como os seus membros. O maior perigo para as sociedades livres que existiram não foi a regressão interna, mas a agressão externa, e o verdadeiro problema não é tanto saber como fazer funcionar uma sociedade livre quanto saber como fazê-la arrancar.

Revolução Ou Reforma

Os anarquistas têm sido tradicionalmente partidários duma revolução violenta para estabelecer uma sociedade livre, mas alguns deles rejeitaram a violência, ou a revolução, ou ambas ao mesmo tempo dado que a violência é tantas vezes seguida duma contra-violência e a revolução duma contra-revolução. Por outro lado, poucos anarquistas têm sido partidários de simples reformas, porque constatavam que, enquanto o sistema de autoridade e de propriedade existir, mudanças superficiais nunca porão em perigo as estruturas fundamentais da sociedade. O difícil da questão é que o que os anarquistas querem, é obviamente revolucionário, mas uma revolução não acarretará necessariamente e provavelmente até não o que querem. Eis a razão pela qual os anarquistas se decidiram muitas vezes a cações desesperadas ou caíram numa inatividade sem esperança.
Praticamente, a maioria das disputas entre os anarquistas reformistas e os anarquistas revolucionários é vã, porque só os revolucionários mais fanáticos se recusam a acolher favoravelmente as reformas e só os reformistas exaltados se recusam a acolher com prazer a revolução; todos os revolucionários sabem bem que a sua acção não levará geralmente a mais nada do que a reformas e todos os reformistas sabem que a sua cação leva em geral a uma espécie de revolução ou a outra (8). O que os anarquistas querem, é uma pressão constante que leve ao convencimento dos indivíduos, à formação de grupos, à reforma de instituições, ao levantamento do povo e à destruição da autoridade e da propriedade. Se isso acontecesse sem desordem, satisfaria os nossos desejos; mas nunca assim aconteceu e provavelmente nunca acontecerá. Chega o momento em que é preciso sair-se da casca e afrontar as forças do Estado no bairro onde vivemos, no trabalho, nas ruas e se o Estado for vencido, tanto mais será preciso continuar a agir, para impedir o estabelecimento dum novo Estado e para se começar a construir uma sociedade livre. Há lugar para todos em tal processo e todos os anarquistas encontrarão algo para fazer, no combate pela obtenção do que querem.

NOTAS:


5- A palavra portuguesa "trabalho" é derivada da latina tripalium, que designava um instrumento de tortura. Esta filiação etimológica diz tudo. Sobretudo se tivermos em vista as pessoas pouco recomendáveis que sempre aconselharam o trabalho como terapêutica (para os outros!). E pensamos em Hitler e no «Arbeit macht frei» («O trabalho liberta»), encimando o grande portão de ferro do campo de concentração de Auschwitz; ou em Staline com as mãos cheias de medalhas para os «heróis do trabalho», os incansáveis stakhanovistas minados pela silicose; ou no papa João Paulo II com as encíclicas laborais ao alcance do gatázio, as viagens ao cerne da miséria brasileira ou da piolheira filipina, as exortações à pachorra ou à fossanguice e o ânus artificial, depois dos tiros que apanhou... A lista dos filantropos teria mais nomes do que quantos ladrões tinha o pinhal da Azambuja.
Considerando que o trabalho assalariado e a divisão hierarquizada do trabalho se contam entre as maiores degradações do homem, a humanidade «trabalhada» deve libertar-se da maldição bíblica do trabalho e comer o pão com outro condimento que não o suor do rosto. Algumas mentes peregrinas, porém, filhas do robot e do computador, em geral oriundas do marxismo autoritário e cada vez mais deliquescente, gostariam de acabar com o trabalho de qualquer maneira, em termos totalmente irrealistas, e de impor um modelo único de madracice tão estúpido como o trabalho. E, derradeira esperteza, aconselham o novo tratamento apenas para as míticas e abstratas «sociedades de abundância», tecnologicamente sofisticadas, onde a «acumulação primitiva» já estaria feita. Esquecem-se, em primeiro lugar, que a abundância é sempre relativa. É um termo de economista ou de merceeiro que não toma em consideração nem as necessidades reais (não as forjadas pela publicidade), nem os recursos efetivamente disponíveis (não as mercadorias empilhadas). Assim, e por paradoxal que pareça, as sociedades da Idade da Pedra, como observa Marshal Sahlins, foram as primeiras sociedades de abundância. Os «primitivos» dispunham do que queriam com poucas horas de atividade, que nem consideravam trabalho. E recusavam-se a acumular por acumular um sobreproduto qualquer, à custa do sobretrabalho, como sublinhava Pierre Clastres. Preferiam ornamentar-se com penas, participar em campeonatos sexuais ou sornar tranquilamente. Ao invés, certas sociedades tecnologicamente mais maquinais podem vir a ser sociedades de penúria, com o esgotamento de certos recursos não renováveis e com o real problema da explosão demográfica. Em segundo lugar, ao expulsarem do paraíso da abundância e do direito à preguiça vastíssimas zonas e extensos setores do populacho, e ao preconizarem para eles a «socialização da miséria», dão uma magnífica caução a todas as ditaduras terceiro-mundistas, estalecas, etc. Pois se não se podia ir mais longe, como diria o paizinho Staline coçando a bigodeira...
Nós, que não somos fatalistas, nem temos o mito provinciano da máquina 100% ao serviço do homem e deste 100% ao serviço do ócio, pensamos de maneira quiçá mais cientifica, como soe dizer-se, que pode haver um trabalho lúdico, que tem que haver uma organização imparcial para as tarefas ingratas ou monótonas, que pode haver uma distribuição livre para os bens exuberantes, que tem que haver regulamentação para partilhar os produtos escassos e combater a escassez, e que mesmo sociedades menos desenvolvidas não estão ao abrigo duma revolução radical.

6- Os anarquistas compreenderam desde sempre que não se pode construir um mundo novo a sério conservando o exército, a polícia, a magistratura, as casernas, as prisões e outras respeitadas e veneradas instituições. Sabem que a Revolução Francesa começou com a tomada da Bastilha, em 1789, e que a Revolução Espanhola de 1936 pôs todos os presos na rua, nas zonas controladas pelos revolucionários . A famosa «Coluna de Ferro», que tão bem se bateu contra fascistas e stalinistas e tanto resistiu contra a militarização das milícias, que tanto tempo esteve na vanguarda do combate real e não na retaguarda das sinecuras e das prebendas, era constituída em parte por ex-presos comuns do presidio de San Miguel de los Reyes.
Em Portugal, durante a vigência dum nacional-cristianismo soez, cimentou-se a tendência para dizer que a P. I. D. E. era a única policia má, enquanto a Judiciária, a G. N. R., a P. S. P. e tutti quanti seriam boas e honradas corporações. Paralelamente, considerava-se o preso político, o aristocrata aperaltado do elegante crime político, como o único bicho de todo o bestiário prisional digno da liberdade. Ora, na nossa opinião, o dito bicho era tantas vezes preso apenas por distribuir panfletos rotineiros e não por se inspirar na propaganda pelo ato ou na ação direta...
Em 1975 (ou 1976), vários grupos anarquistas de Lisboa, num pequeno manifesto intitulado «Destruamos todas as Bastilhas», reataram com a tradição libertária, solidarizaram-se com os presos comuns e declararam que o combate destes era o deles porquanto, dentro ou fora das grades, o mundo em que sobrevivemos tem tendência a assemelhar-se a uma prisão. No mesmo sentido, a C. N. T. e os grupos anarquistas espanhóis, já depois da morte de Franco sem dúvida o maior assassino espanhol deste século, que morreu tranquilamente na cama e nunca foi parar à cadeia, foram as únicas organizações que promoveram campanhas e gritaram: «Os presos para a rua! Políticos também!»

7- O anarquismo é a única corrente revolucionária claramente pluralista. Para desfazermos qualquer equívoco, digamos que o pluralismo não é a existência de 2, 3, 4 ou mais partidos democratóides tirados a papel químico, como o pretende o discurso democratolas dos políticos da nossa praça. O pluralismo autêntico é a coexistência e o equilíbrio entre centenas ou milhares de diferentes formações sociais, autônomas ou unidas por laços federalistas e não por imposição de qualquer forma de poder, central ou local. A grande referência sobre o relativismo dos «modelos» é, evidentemente, Proudhon.

8- Os «anarquistas reformistas», se é que não há contradição entre o substantivo e o adjetivo, devem ter sempre presente que há, houve e haverá uma diferença qualitativa entre reforma e revolução. Não se passa daquela para esta por meio de simples acréscimos de quantidade ou por pirueta dialética a menos que se considere revolução um conjunto de reformas concedidas pelo Estado!
Os «anarquistas revolucionários», se é que não há aqui petição de princípio ou pleonasmo e se o adjetivo não é redundante, não pretendem economizar esforços quando se trata da revolução e não pretendem substitui-la por uma hipotética evolução. Todos os dias a preparam e sabem que haverá grandes sacudidelas no edifício social. O que é preciso é que não haja apenas, como diz a fórmula matreira, «revolução» no quotidiano de 2 ou 3 gatos...