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O
Que Queremos?
Enquanto
anarquistas desejamos o maior grau possível de liberdade
para tod@s. Pensamos que a existência dessa mesma liberdade
é incompatível com a actual organização
social e não pode coexistir com a exploração
do homem e da natureza, com os Estados e os seus aparelhos repressivos,
com os seus exércitos, polícias e prisões.
Sobre
o que nós queremos já se produziu mais de um século
de literatura libertária, cujo estudo é indispensável.
Pensamos que o texto seguinte, extraído do livro Do Anarquismo
de Nicolas Walter, é uma boa ajuda para quem quer saber
o que é afinal o anarquismo.
QUE QUEREM
OS ANARQUISTAS?
É
difícil dizer o que querem os anarquistas, não só
porque são tão diferentes uns dos outros, mas também
porque hesitam em fazer propostas detalhadas para um futuro que
não podem nem desejam controlar. No fundo, querem uma sociedade
sem governo e tal coisa variará evidentemente de época
para época e de lugar para lugar. O traço essencial
da sociedade que os anarquistas querem, é que ela será
o que os seus membros dela quererão fazer. Não obstante,
é possível dizer o que a maioria deles gostaria
de ver numa sociedade livre, lembrando nós que não
há linha oficial, como de modo idêntico não
há meio de reconciliar os extremos: o individualismo e
o comunismo.
O Indivíduo
Livre
A
maioria dos anarquistas adota em primeiro lugar uma atitude libertária
para com a vida pessoal e gostaria que houvesse uma escolha muito
mais vasta de comportamentos pessoais e de relações
sociais. Mas se o indivíduo é o átomo da
sociedade, a família é a molécula e a vida
familiar subsistirá, mesmo que desapareça a coerção
que a reforça. Não obstante, se bem que a família
possa ser uma coisa natural, não é mais necessária;
uma contracepção eficaz e uma inteligente partilha
das tarefas desembaraçaram a humanidade da alternativa
entre o celibato e a monogamia. Um casal não é mais
obrigado a ter crianças e as crianças podem ser
educadas por mais ou menos pessoas do que dois pais. Pode-se viver
só e contudo ter parceiros sexuais, ou viver em comunidade
sem parceiros permanentes nem parentesco oficial.
Sem dúvida alguma, continuar-se-á a praticar certas
formas de casamento e a maioria das crianças será
educada num quadro familiar, aconteça o que acontecer à
sociedade; mas poderá haver uma grande variedade de acordos
pessoais no interior duma só comunidade. A exigência
fundamental é que as mulheres estejam libertas da opressão
masculina e que as crianças estejam libertas da opressão
dos pais. O exercício da autoridade não é
melhor no microcosmo familiar do que no macrocosmo social.
As relações pessoais fora da família não
serão regulamentadas por leis arbitrárias ou pela
competição econômica, mas pela solidariedade
natural da espécie humana. Cada um de nós, ou quase,
sabe como tratar outrem como gostaria que outrem o tratasse o
respeito por si mesmo e a opinião crítica dos outros
são bem melhores guias de educação do que
o medo ou o sentimento de culpa. Adversários do anarquismo
pretenderam que a opressão moral da sociedade seria pior
que a opressão física do Estado, mas há um
perigo bem maior: num sistema estatal, a autoridade desenfreada
dos grupos de guardas, das hordas de linchadores, dos bandos de
gatunos ou de criminosos emerge como uma forma rudimentar de Estado,
assim que a autoridade regulamentada do Estado real falta por
uma razão ou por outra. Porém os anarquistas estão
em geral de acordo sobre a vida pessoal não é um
problema grave. Ao fim e ao cabo, já muitas pessoas se
organizaram à sua maneira, sem esperarem pela revolução
nem pelo que quer que seja. Tudo o que é necessário
para a libertação do indivíduo é a
emancipação dos velhos preconceitos e a obtenção
dum certo nível de vida. O verdadeiro problema é
a libertação da sociedade.
A Sociedade
Livre
A
exigência prioritária para uma sociedade livre é
a abolição da autoridade e a expropriação
da propriedade. Em vez dum governo formado por representantes
permanentes eleitos ocasionalmente e por burocratas de carreira
praticamente inamovíveis, os anarquistas querem uma coordenação
efetuada por delegados temporários, imediatamente revogáveis,
e por peritos profissionais verdadeiramente responsáveis.
Em tal sociedade, todas as atividades sociais que implicam uma
organização, seriam provavelmente administradas
por associações livres. Pode-se chamar-lhes conselhos,
cooperativas, coletividades, comunas, comités, sindicatos
ou sovietes, ou qualquer outra coisa ou título não
tem importância, só a função conta.
Haverá associações de trabalho indo da oficina
ou da pequena empresa aos maiores complexos industriais ou agrícolas,
que se ocuparão da produção e do transporte
dos bens, decidirão das condições de trabalho
e farão funcionar a economia. Haverá associações
regionais indo do lugarejo ou da aldeia às maiores unidades
de residência, que se ocuparão da vida da comunidade
habitação, ruas, saneamento, conforto. Haverá
associações que se ocuparão dos aspectos
sociais das atividades, como as comunicações, a
cultura, os tempos livres, a pesquisa científica, a saúde
e a educação.
A coordenação por meio das associações
livres, em vez da administração por meio das hierarquias
constituídas, terá por resultado uma descentralização
extrema segundo os princípios federalistas. Tal pode parecer
um argumento contra o anarquismo, mas nós afirmamos que
é um argumento a seu favor. Uma das bizarrias do pensamento
político moderno é pretender que as guerras são
devidas à existência de pequenas nações,
quando as piores guerras da história foram causadas por
um pequeno número de grandes países. Do mesmo modo,
os governos tentam criar unidades administrativas cada vez maiores,
quando a observação mostra que as mais pequenas
são as melhores. A queda dos grandes sistemas políticos
será um dos maiores benefícios do anarquismo e as
populações locais poderão voltar a ser entidades
culturais, enquanto as nações desaparecerão.
A associação encarregada de toda a espécie
de riqueza ou de bens terá a grave responsabilidade quer
de garantir que sejam honestamente repartidos entre as pessoas
componentes da comunidade, quer de guardá-los em propriedade
comum e de garantir que o seu uso seja honestamente repartido
entre as pessoas interessadas. As soluções anarquistas
variam e as dos membros duma sociedade livre variarão sem
dúvida também; caberá aos membros de cada
associação adotarem o método que preferirem.
Poderá haver uma remuneração igual para todos,
ou proporcional às necessidades, ou não haver remuneração
alguma. Certas associações utilizarão o dinheiro
para as trocas, outras para transações importantes
ou complexas, outras não utilizarão um centavo.
Os bens serão comprados ou alugados, racionados ou livres.
Se especulações teóricas deste tipo parecem
absurdas, irrealistas ou utópicas, pense-se então
simplesmente em tudo o que possuímos já em comum
e em tudo o que pode ser utilizado sem se pagar.
Na Inglaterra, por exemplo, a comunidade possui algumas indústrias
pesadas, os transportes aéreos e ferroviários, os
barcos das carreiras e os autocarros, a rádio e a televisão,
a água, o gás e a eletricidade, mas temos que pagar
para utilizar tudo isso; em contrapartida, as ruas, as pontes,
os rios, as praias, os parques, as bibliotecas, os terrenos de
jogos, as casas de banho públicas, as escolas, as universidades,
os hospitais e os serviços de pronto socorro não
são apenas propriedade comum, como são também
serviços gratuitos. A distinção entre propriedade
privada e propriedade comum e entre o que se pode utilizar pagando
e o que é gratuito, é completamente arbitrária.
Pode parecer natural que se possa utilizar as estradas e as praias
sem nada pagar, mas não foi sempre assim e a gratuidade
dos hospitais e das universidades só existe em Inglaterra
desde o começo do século. Do mesmo modo, pode parecer
natural que se pague pelos transportes e pelo combustível,
contudo esse não será sempre o caso necessariamente
e não há razão para que isso não seja
gratuito.
Com certeza, todos os serviços devem ser financiados por
uma espécie de impostos, mas estes não terão
sempre forçosamente a forma constrangedora que têm
na sociedade atual. Pode-se imaginar que os membros duma sociedade
garantam sem remuneração uma grande parte dos serviços
públicos, que as contribuições sejam voluntárias
ou diferenciadas (dinheiro ou outras prestações);
o funcionamento dos serviços públicos depende evidentemente
da partilha das tarefas estabelecida em dada sociedade.
A divisão eqüitativa ou a livre distribuição
das riquezas, em vez da sua acumulação, terá
por resultado o fim do sistema de classes baseado na propriedade.
Porém os anarquistas também querem o fim do sistema
de classes baseado no controle monopolístico. Isso implica
uma vigilância constante para evitar o crescimento da burocracia
nas associações e acima de tudo implica a reorganização
do trabalho sem classe dirigente.
O Trabalho
As
necessidades elementares do homem são a alimentação,
o tecto e o vestuário, que lhe permitem sobreviver; as
necessidades secundárias são algumas comodidades
suplementares, que fazem com que a vida valha a pena ser vivida.
A primeira atividade econômica de todo o grupo humano é
a produção e a distribuição de bens
que satisfazem tais necessidades; e o aspecto mais importante
da sociedade depois das relações pessoais, nas quais
se fundamenta é a organização do trabalho
indispensável. Que pensam os anarquistas do trabalho? Em
primeiro lugar, consideram que todo o trabalho é desagradável,
mas pode ser organizado de maneira a tornar-se suportável
e mesmo agradável (5); em segundo lugar, que o trabalho
deveria ser organizado pelos que o fornecem realmente.
Os anarquistas estão de acordo com os marxistas para dizerem
que o trabalho na sociedade atual aliena o trabalhador. Não
é a sua vida, mas o que faz para poder viver; a sua vida
é o que faz fora do trabalho e quando faz alguma coisa
que lhe dá prazer, não lhe chama trabalho. É
o caso da maior parte dos trabalhos que a maioria das pessoas
faz, em toda a parte, e é certamente o caso duma quantidade
de trabalhos que uma quantidade de pessoas fez, em todas as épocas.
O labor fatigante e repetitivo que é preciso efetuar para
fazer crescer plantas e criar animais, para fazer funcionar ramos
industriais ou dos transportes, para proporcionar às pessoas
o que desejam e para lhes tirar da vista aquilo que não
querem, semelhante labor não pode ser abolido sem uma queda
radical do nível de vida material; e a automatização,
que pode diminuir a fadiga, aumenta ainda mais a repetição.
Contudo os anarquistas afirmam que a solução não
é condicionar as pessoas para lhes fazer crer que esta
situação é inevitável; o que é
preciso fazer é reorganizar o trabalho essencial de tal
maneira que, em primeiro lugar, seja normal que cada pessoa capaz
faça a sua parte e que não passe nisso mais do que
escassas horas por dia; em segundo lugar, que seja facultada a
cada um a possibilidade de alternar entre diferentes tipos de
trabalhos aborrecidos, os quais pela sua variedade perderão
um pouco do caracter aborrecido. Não é apenas uma
questão de partes eqüitativas para cada um, mas também
de trabalhos equivalentes.
Os anarquistas estão de acordo também com os sindicalistas
para dizerem que o trabalho deve ser organizado pelos trabalhadores.
Tal não quer dizer que a classe operária ou os sindicatos,
ou um partido da classe operária (quer dizer um partido
que pretenda representá-la) dirigirá a economia
e terá o controle supremo do trabalho. Também não
quer dizer, em escala mais pequena, que o pessoal duma fábrica
poderá eleger o diretor ou ver as contas. Quer simplesmente
dizer que as pessoas que têm uma tarefa particular controlam
total e diretamente o que fazem, sem patrões nem diretores
nem inspetores. Alguns trabalhadores podem vir a ser bons coordenadores
e podem limitar-se a fazer a coordenação, mas não
é necessário que tenham qualquer poder sobre os
que fornecem o trabalho real. Outros podem ser preguiçosos
ou ineficazes, porém já isso hoje acontece. Deve-se
chegar a ter o maior controle possível sobre o próprio
trabalho, assim como sobre a própria vida.
O supracitado princípio aplica-se a todas as espécies
de trabalho tanto aos campos como às fábricas, às
grandes ou às pequenas empresas, a trabalhos qualificados
ou não e tanto aos trabalhos sujos como às profissões
liberais e não é só uma medida útil
para tornar os operários felizes, mas também um
princípio fundamental para toda a economia liberta. Objetar-se-á
imediatamente que o controle total dos trabalhadores levará
a uma competição desastrosa entre os diversos locais
de trabalho e à produção de bens inúteis;
ao que se responderá imediatamente que a falta total de
controle operário conduz exatamente a semelhante situação.
O que faz falta é uma planificação inteligente
e, apesar do que muita gente parece pensar, esta não assenta
num controle mais extenso da cúpula, mas numa informação
mais extensa da base.
A maioria dos economistas preocupou-se mais com a produção
do que com o consumomais com o fabrico de bens do que com a sua
utilização. Os homens de esquerda e de direita querem
todos que a produção aumente, ou para que os ricos
se enriqueçam, ou para que o Estado se reforce, e daí
resulta uma «sobreprodução» vivendo
paredes meias com a pobreza, uma produtividade crescente ao lado
dum desemprego crescente, edifícios administrativos sempre
mais altos ao lado duma crise da habitação, maiores
colheitas por hectare ao lado de cada vez mais hectares por alqueivar.
Os anarquistas preocupam-se mais com o consumo do que com a produção
com a utilização dos bens para a satisfação
das necessidades de todos, não para o aumento dos lucros
dos ricos e dos poderosos.
O Necessário
e o Supérfluo
Uma
sociedade que tem pretensões quanto a um mínimo
de decência, não pode autorizar a exploração
das necessidades fundamentais. Pode-se admitir que os objetos
de luxo sejam comprados e vendidos, porquanto se tem a escolha
de utilizá-los ou não; mas os objetos necessários
não são puras mercadorias, já que não
se tem a escolha de utilizá-los ou não. Se se deve
retirar qualquer coisa do mercado comercial e das mãos
dos grupos monopolísticos, é certamente a terra
sobre a qual vivemos, a comida que aí cresce, as casas
que aí são construídas e as coisas essenciais
que constituem a base material da vida humana: vestuário,
utensílios, móveis, combustível, etc. Também
é evidente que, quando uma coisa necessária é
abundante, cada um deveria poder servir-se de quanto tem necessidade;
mas, quando há falta de qualquer coisa, deveria haver um
sistema de racionamento adotado livremente, de tal maneira que
cada um tivesse uma parte eqüitativa. Qualquer coisa evidentemente
soa a falso, num sistema onde esbanjamento e penúria vivem
lado a lado, onde alguns têm mais que o necessário,
enquanto outros têm falta de tudo.
Acima de tudo, é claro que o primeiro dever duma sociedade
sã é eliminar a raridade dos bens indispensáveis
como a falta de comida nos países subdesenvolvidos e a
falta de alojamentos nos países desenvolvidos pela utilização
dos conhecimentos técnicos e dos recursos sociais. Se as
qualificações e a força de trabalho existente
na Inglaterra ou na França, por exemplo, fossem convenientemente
utilizadas, não há qualquer razão para que
não se pudesse produzir comida bastante e construir casas
suficientes para alimentar e alojar toda a população.
Tal não é o caso hoje, porque a sociedade atual
tem outras prioridades, mas não é impossível.
Pretendeu-se em dada época que era impossível que
cada um estivesse vestido convenientemente e os pobres vestiam
farrapos; agora, dispõe-se duma quantidade de peças
de vestuário e poder-se-ia também dispor duma quantidade
de outras coisas.
O luxo, por estranho paradoxo, também é necessário,
mas não é uma necessidade de base. O segundo dever
duma sociedade sã é tornar o luxo acessível
livremente, se bem que seja um domínio onde o dinheiro
poderia ter ainda uma função útil, com a
condição de não ser distribuído segundo
o sistema ridículo dos países capitalistas, ou segundo
o sistema ainda mais absurdo dos países comunistas. O problema
essencial é que cada um tenha acesso livre e igual ao luxo.
Mas o homem não vive apenas de pão, nem mesmo de
bolos. Os anarquistas não quereriam ver todas as atividades
dos momentos de ócio, intelectuais, culturais, etc., nas
mãos da sociedade mesmo da sociedade mais libertária.
Não obstante, há atividades que não podem
ser deixadas aos indivíduos agrupados em associações
livres, mas que devem ser geridas pela sociedade inteira. São
os serviços sociais, o apoio mútuo para além
dos limites da família e dos amigos, fora do local de habitação
ou de trabalho. Examinemos três desses serviços.
A Sociedade
Do Bem-Estar
A
educação é muito importante nas sociedades
humanas, porque o homem leva muito tempo a crescer e a aprender
os atos e técnicas necessários à vida social;
e os anarquistas interessaram-se sempre muito pelos problemas
da educação. Vários pensadores anarquistas
trouxeram contributos de valor à teoria e à prática
da educação e vários reformadores da educação
tiveram tendências libertárias de Rousseau e Pestalozzi
a Montessori, A. S. Neill e Freinet. Idéias sobre a educação,
que se julgava utópicas, estão agora integradas
no ensino tanto público quanto privado e a educação
é talvez o domínio da sociedade mais entusiasmante
para os que querem pôr o anarquismo em prática. Se
nos disserem que o anarquismo é uma idéia atraente
mas inaplicável, basta-nos mostrar uma escola de vanguarda,
uma turma de adaptação praticando métodos
cativos, um clube de jovens autogerido. No entanto, mesmo o melhor
sistema de educação continua controlado por pessoas
investidas de autoridade: professores, diretores, administradores,
inspetores, etc. Os adultos encarregados da educação
têm geralmente tendência para controlar todas as suas
formas; na verdade, não é necessário que
ela seja controlada por eles, nem por razões ainda mais
óbvias pelas pessoas que nada têm a ver com o assunto.
Os anarquistas gostariam que as reformas atuais do ensino fossem
muito mais longe. Não se deveria abolir apenas a disciplina
rígida e os castigos, dever-se-ia abolir toda a disciplina
e toda a punição. Não se deveria libertar
as instituições de ensino apenas do poder das autoridades
exteriores, os próprios alunos deveriam ser libertos do
poder dos professores e dos diretores. Numa relação
educativa sã, o fato dum saber mais do que o outro não
é razão para que o professor tenha uma autoridade
qualquer sobre o aluno. O estatuto dos mestres na sociedade atual
baseia-se na idade, na força, na experiência, na
lei; mas o único estatuto que os mestres deveriam ter,
deveria basear-se nos seus conhecimentos em determinado campo
e na capacidade para ensiná-lo e, por fim, na capacidade
para inspirarem a admiração e o respeito. O que
faz falta não é tanto um contra-poder estudantil
se bem que seja um útil corretivo ao poder dos professores
e dos burocratas quanto um «controle operário»
exercido por todos os que se sentem interessados por uma associação
educativa. O problema essencial é quebrar o elo entre ensinar
e governar e libertar a educação.
Esta ruptura está de fato muito mais próxima no
serviço médico do que no ensino. Os médicos
já não são mágicos, as enfermeiras
já não são santas nem freiras; e em muitos
países em particular na Inglaterra o direito aos cuidados
médicos gratuitos está garantido. O que faz falta,
é uma extensão do princípio da liberdade
econômica ao aspecto político da medicina. Dever-se-ia
poder ir em toda a parte ao hospital sem pagar e dever-se-ia também
poder trabalhar nos hospitais sem hierarquia. Uma vez mais, é
preciso um controle exercido por todos os trabalhadores empregados
numa instituição médica. Do mesmo modo que
o ensino é feito para os alunos, também os serviços
médicos são feitos para os pacientes.
O tratamento da delinqüência também fez muitos
progressos, conquanto ainda esteja longe de ser satisfatório.
Que pensam os anarquistas da delinqüência? Em primeiro
lugar, consideram que a maioria daqueles a que se chama criminosos,
são como as outras pessoas, apenas um pouco mais pobres,
mais fracos, mais loucos, mais infortunados; em segundo lugar,
que os que prejudicam os outros vezes e vezes sem conta, não
deveriam ser punidos a seu turno, mas que seria necessário
que alguém tomasse conta deles. Os maiores criminosos não
são os arrombadores, mas os patrões; não
são os gangsters, mas os governantes; não são
os assassinos, mas os que exterminam em massa. Algumas injustiças
menores são amarradas ao pelourinho e punidas pelo Estado,
enquanto as maiores injustiças da sociedade atual são
dissimuladas e mesmo cometidas pelo próprio Estado. Em
geral, a punição causa um dano maior à sociedade
que o crime; é mais sistemática, está melhor
organizada e é muito mais eficaz. Não obstante,
mesmo a sociedade mais libertária deverá proteger-se
contra algumas pessoas e isso implicará forçosamente
um certo constrangimento. Porém o tratamento adequado da
delinqüência fará parte do sistema educativo
e curativo e não será um sistema penal institucionalizado.
Como último recurso, não se imporá a prisão
nem a pena de morte, mas o boicote ou a expulsão (6).
O Pluralismo
O
contrário também pode acontecer. Um indivíduo
ou um grupo pode recusar-se a juntar-se à melhor sociedade
possível, ou pode insistir para a deixar; ninguém
poderia detê-lo. Teoricamente, um homem pode prover às
suas necessidades só, ainda que na prática dependa
da comunidade que lhe fornece materiais e recebe os seus produtos
em troca; é portanto difícil que alguém se
baste literalmente a si mesmo. Uma sociedade coletivista ou comunista
deverá tolerar e mesmo encorajar as zonas de individualismo.
O que seria inaceitável, seria que uma pessoa independente
tentasse explorar a força de trabalho dos outros, empregando-os
e pagando-lhes salários, ou que trocasse produtos a preços
de usura. Tal não deve acontecer, porque em condições
normais não se trabalhará nem se comprará
produtos em proveito de outrem, mas apenas no próprio;
e da mesma maneira que nenhuma lei proibirá a apropriação,
nenhuma proibirá a expropriação poder-se-á
tomar o que se quiser a outrem, mas a pessoa em questão
poderá retomá-lo. A autoridade e a propriedade poderão
dificilmente ser reencontradas por indivíduos isolados.
Um perigo maior pode vir da parte de grupos independentes. Uma
comunidade separada poderá existir facilmente numa sociedade
e poderá provocar graves tensões; se regressar ao
sistema de propriedade e de autoridade, o que poderá aumentar
o nível de vida duma minoria, outras sentir-se-ão
tentadas a juntar-se aos separatistas, particularmente se a sociedade
no conjunto atravessar um período duro.
Contudo uma sociedade livre deve ser pluralista e tolerar não
só diferenças de opinião sobre a maneira
de praticar a liberdade e a igualdade, mas também desvios
à sua teoria da liberdade e da igualdade. A única
condição deveria ser que ninguém fosse forçado
a aderir a nenhuma tendência contra a sua vontade e aí
será necessário uma espécie de constrangimento
para proteger mesmo a mais libertária das sociedades. Mas
os anarquistas querem substituir a sociedade de massa por uma
massa de sociedades (7), vivendo em conjunto tão livremente
como os seus membros. O maior perigo para as sociedades livres
que existiram não foi a regressão interna, mas a
agressão externa, e o verdadeiro problema não é
tanto saber como fazer funcionar uma sociedade livre quanto saber
como fazê-la arrancar.
Revolução
Ou Reforma
Os
anarquistas têm sido tradicionalmente partidários
duma revolução violenta para estabelecer uma sociedade
livre, mas alguns deles rejeitaram a violência, ou a revolução,
ou ambas ao mesmo tempo dado que a violência é tantas
vezes seguida duma contra-violência e a revolução
duma contra-revolução. Por outro lado, poucos anarquistas
têm sido partidários de simples reformas, porque
constatavam que, enquanto o sistema de autoridade e de propriedade
existir, mudanças superficiais nunca porão em perigo
as estruturas fundamentais da sociedade. O difícil da questão
é que o que os anarquistas querem, é obviamente
revolucionário, mas uma revolução não
acarretará necessariamente e provavelmente até não
o que querem. Eis a razão pela qual os anarquistas se decidiram
muitas vezes a cações desesperadas ou caíram
numa inatividade sem esperança.
Praticamente, a maioria das disputas entre os anarquistas reformistas
e os anarquistas revolucionários é vã, porque
só os revolucionários mais fanáticos se recusam
a acolher favoravelmente as reformas e só os reformistas
exaltados se recusam a acolher com prazer a revolução;
todos os revolucionários sabem bem que a sua acção
não levará geralmente a mais nada do que a reformas
e todos os reformistas sabem que a sua cação leva
em geral a uma espécie de revolução ou a
outra (8). O que os anarquistas querem, é uma pressão
constante que leve ao convencimento dos indivíduos, à
formação de grupos, à reforma de instituições,
ao levantamento do povo e à destruição da
autoridade e da propriedade. Se isso acontecesse sem desordem,
satisfaria os nossos desejos; mas nunca assim aconteceu e provavelmente
nunca acontecerá. Chega o momento em que é preciso
sair-se da casca e afrontar as forças do Estado no bairro
onde vivemos, no trabalho, nas ruas e se o Estado for vencido,
tanto mais será preciso continuar a agir, para impedir
o estabelecimento dum novo Estado e para se começar a construir
uma sociedade livre. Há lugar para todos em tal processo
e todos os anarquistas encontrarão algo para fazer, no
combate pela obtenção do que querem.
NOTAS:
5-
A palavra portuguesa "trabalho" é derivada da
latina tripalium, que designava um instrumento de tortura. Esta
filiação etimológica diz tudo. Sobretudo
se tivermos em vista as pessoas pouco recomendáveis que
sempre aconselharam o trabalho como terapêutica (para os
outros!). E pensamos em Hitler e no «Arbeit macht frei»
(«O trabalho liberta»), encimando o grande portão
de ferro do campo de concentração de Auschwitz;
ou em Staline com as mãos cheias de medalhas para os «heróis
do trabalho», os incansáveis stakhanovistas minados
pela silicose; ou no papa João Paulo II com as encíclicas
laborais ao alcance do gatázio, as viagens ao cerne da
miséria brasileira ou da piolheira filipina, as exortações
à pachorra ou à fossanguice e o ânus artificial,
depois dos tiros que apanhou... A lista dos filantropos teria
mais nomes do que quantos ladrões tinha o pinhal da Azambuja.
Considerando que o trabalho assalariado e a divisão hierarquizada
do trabalho se contam entre as maiores degradações
do homem, a humanidade «trabalhada» deve libertar-se
da maldição bíblica do trabalho e comer o
pão com outro condimento que não o suor do rosto.
Algumas mentes peregrinas, porém, filhas do robot e do
computador, em geral oriundas do marxismo autoritário e
cada vez mais deliquescente, gostariam de acabar com o trabalho
de qualquer maneira, em termos totalmente irrealistas, e de impor
um modelo único de madracice tão estúpido
como o trabalho. E, derradeira esperteza, aconselham o novo tratamento
apenas para as míticas e abstratas «sociedades de
abundância», tecnologicamente sofisticadas, onde a
«acumulação primitiva» já estaria
feita. Esquecem-se, em primeiro lugar, que a abundância
é sempre relativa. É um termo de economista ou de
merceeiro que não toma em consideração nem
as necessidades reais (não as forjadas pela publicidade),
nem os recursos efetivamente disponíveis (não as
mercadorias empilhadas). Assim, e por paradoxal que pareça,
as sociedades da Idade da Pedra, como observa Marshal Sahlins,
foram as primeiras sociedades de abundância. Os «primitivos»
dispunham do que queriam com poucas horas de atividade, que nem
consideravam trabalho. E recusavam-se a acumular por acumular
um sobreproduto qualquer, à custa do sobretrabalho, como
sublinhava Pierre Clastres. Preferiam ornamentar-se com penas,
participar em campeonatos sexuais ou sornar tranquilamente. Ao
invés, certas sociedades tecnologicamente mais maquinais
podem vir a ser sociedades de penúria, com o esgotamento
de certos recursos não renováveis e com o real problema
da explosão demográfica. Em segundo lugar, ao expulsarem
do paraíso da abundância e do direito à preguiça
vastíssimas zonas e extensos setores do populacho, e ao
preconizarem para eles a «socialização da
miséria», dão uma magnífica caução
a todas as ditaduras terceiro-mundistas, estalecas, etc. Pois
se não se podia ir mais longe, como diria o paizinho Staline
coçando a bigodeira...
Nós, que não somos fatalistas, nem temos o mito
provinciano da máquina 100% ao serviço do homem
e deste 100% ao serviço do ócio, pensamos de maneira
quiçá mais cientifica, como soe dizer-se, que pode
haver um trabalho lúdico, que tem que haver uma organização
imparcial para as tarefas ingratas ou monótonas, que pode
haver uma distribuição livre para os bens exuberantes,
que tem que haver regulamentação para partilhar
os produtos escassos e combater a escassez, e que mesmo sociedades
menos desenvolvidas não estão ao abrigo duma revolução
radical.
6-
Os anarquistas compreenderam desde sempre que não se pode
construir um mundo novo a sério conservando o exército,
a polícia, a magistratura, as casernas, as prisões
e outras respeitadas e veneradas instituições. Sabem
que a Revolução Francesa começou com a tomada
da Bastilha, em 1789, e que a Revolução Espanhola
de 1936 pôs todos os presos na rua, nas zonas controladas
pelos revolucionários . A famosa «Coluna de Ferro»,
que tão bem se bateu contra fascistas e stalinistas e tanto
resistiu contra a militarização das milícias,
que tanto tempo esteve na vanguarda do combate real e não
na retaguarda das sinecuras e das prebendas, era constituída
em parte por ex-presos comuns do presidio de San Miguel de los
Reyes.
Em Portugal, durante a vigência dum nacional-cristianismo
soez, cimentou-se a tendência para dizer que a P. I. D.
E. era a única policia má, enquanto a Judiciária,
a G. N. R., a P. S. P. e tutti quanti seriam boas e honradas corporações.
Paralelamente, considerava-se o preso político, o aristocrata
aperaltado do elegante crime político, como o único
bicho de todo o bestiário prisional digno da liberdade.
Ora, na nossa opinião, o dito bicho era tantas vezes preso
apenas por distribuir panfletos rotineiros e não por se
inspirar na propaganda pelo ato ou na ação direta...
Em 1975 (ou 1976), vários grupos anarquistas de Lisboa,
num pequeno manifesto intitulado «Destruamos todas as Bastilhas»,
reataram com a tradição libertária, solidarizaram-se
com os presos comuns e declararam que o combate destes era o deles
porquanto, dentro ou fora das grades, o mundo em que sobrevivemos
tem tendência a assemelhar-se a uma prisão. No mesmo
sentido, a C. N. T. e os grupos anarquistas espanhóis,
já depois da morte de Franco sem dúvida o maior
assassino espanhol deste século, que morreu tranquilamente
na cama e nunca foi parar à cadeia, foram as únicas
organizações que promoveram campanhas e gritaram:
«Os presos para a rua! Políticos também!»
7-
O anarquismo é a única corrente revolucionária
claramente pluralista. Para desfazermos qualquer equívoco,
digamos que o pluralismo não é a existência
de 2, 3, 4 ou mais partidos democratóides tirados a papel
químico, como o pretende o discurso democratolas dos políticos
da nossa praça. O pluralismo autêntico é a
coexistência e o equilíbrio entre centenas ou milhares
de diferentes formações sociais, autônomas
ou unidas por laços federalistas e não por imposição
de qualquer forma de poder, central ou local. A grande referência
sobre o relativismo dos «modelos» é, evidentemente,
Proudhon.
8-
Os «anarquistas reformistas», se é que não
há contradição entre o substantivo e o adjetivo,
devem ter sempre presente que há, houve e haverá
uma diferença qualitativa entre reforma e revolução.
Não se passa daquela para esta por meio de simples acréscimos
de quantidade ou por pirueta dialética a menos que se considere
revolução um conjunto de reformas concedidas pelo
Estado!
Os «anarquistas revolucionários», se é
que não há aqui petição de princípio
ou pleonasmo e se o adjetivo não é redundante, não
pretendem economizar esforços quando se trata da revolução
e não pretendem substitui-la por uma hipotética
evolução. Todos os dias a preparam e sabem que haverá
grandes sacudidelas no edifício social. O que é
preciso é que não haja apenas, como diz a fórmula
matreira, «revolução» no quotidiano
de 2 ou 3 gatos...
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