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Terceira Parte - A Revolução Libertária

ECONOMIA E LIBERDADE

O anarquismo, que significa liberdade, é compatível com as mais diversas condições económicas, partindo da premissa de que essas condições não possam implicar, tal como acontece sob o monopólio capitalista, a negação da liberdade. O anarquismo é uma atitude do espírito em direcção á vida e, em todos os sistemas económicos que não sejam monopolistas, o homem é capaz de ser o senhor de si mesmo e de viver segundo a sua vontade, rejeitando toda a imposição exterior.

A negação do princípio da autoridade do homem sobre o homem não depende do alcançar de um nível económico predeterminado. O anarquismo opõe-se ao marxismo, que pretende atingir um sistema que será o corolário do processo de evolução do sistema capitalista. Para se ser um anarquista, é necessário que se atinja um certo nível de cultura e de consciência da capacidade e da possibilidade da autodeterminação. Os idiotas não podem tornar-se anarquistas; a sociedade vai ter que cuidar deles, tal como cuida dos fracos e dos incapacitados.

Estamos conscientes de que o grau de desenvolvimento económico e as condições materiais de vida exercem uma influência poderosa sobre a psicologia humana. Quando confrontado com a fome, o individuo torna-se egoísta; a abundância pode torná-lo generoso, amigável e sociável. Todos os períodos de privações e de penúria produziram a brutalidade, a regressão moral e a luta feroz de todos contra todos pelo pão de cada dia. Consequentemente, é fácil de ver que a economia influencia seriamente a vida espiritual do indivíduo e as suas relações sociais. É precisamente por isso que pretendemos estabelecer as melhores condições económicas possíveis, que vão agir como um garante de relações sólidas e iguais entre os homens. Não vamos deixar de ser anarquistas por termos o estômago vazio, mas não gostamos propriamente de ter o estômago vazio.

Queremos um regime económico no qual a abundância, o bem-estar e a satisfação fiquem ao alcance de todos. Esta aspiração não nos distingue enquanto revolucionários. O ideal do bem-estar é partilhado por todos os movimentos sociais. O que nos diferencia é a nossa condição de anarquistas, que colocamos inclusive á frente do nosso bem-estar. Pelo menos como indivíduos, preferimos a liberdade acompanhada pela fome á saciedade acompanhada pela escravatura e pela submissão.

Se apoiamos o comunismo, não é porque esse sistema seja idêntico ao anarquismo. O comunismo pode ser realizado sob as mais diversas combinações económicas, individuais e colectivas. Proudhon defendia o mutualismo; Bakunine, o colectivismo; Kropotkine, o comunismo. Malatesta concebeu a possibilidade de sistemas mistos, em especial durante o primeiro período. Tarrida del Marmol y Mella defendeu o anarquismo puro, sem quaisquer considerações económicas, o que pressupõe a liberdade de experimentar ou estabelecer para teste aquilo que cada período e cada local julgar mais conveniente.

O que podemos dizer é que pretendemos atingir um sistema económico de direitos iguais e de justiça, no qual a abundância seja possível. Ou seja, a devida satisfação das necessidades materiais vai criar por si mesma uma disposição para a sociabilidade e constituir desta forma um garante sólido da liberdade e da solidariedade. O homem, quando forçado a competir contra o seu semelhante, torna-se num lobo e nunca se pode tornar num irmão para o seu semelhante se não dispuser de segurança material.

Se o anarquismo para os anarquistas pode existir tanto na abundância quanto na miséria, o comunismo terá que ter por sua base a abundância. No comunismo, há uma certa generosidade e esta generosidade, numa altura em que se sofram privações, é substituída pouco a pouco pelo egoísmo, pela desconfiança e pela competição, ou seja, pela luta pelo pão. Portanto, repetimos: a abundância é indispensável para se assegurar uma vida comum progressista.

Nós encaramos, portanto, a reorganização económica do futuro, livres de quaisquer noções preconcebidas, sistemas fixos ou dogmas. O comunismo vai ser o resultado natural da abundância, sem a qual vai continuar a ser apenas um sonho. Em cada lugar, o grau de comunismo, colectivismo ou mutualismo atingido vai depender das condições prevalecentes. Quem vai ditar as regras? Nós, que fazemos da liberdade a nossa bandeira, não a podemos negar no campo económico. Deve existir, portanto, a liberdade de experimentar, de expor iniciativas e sugestões, assim como a liberdade de organização.

Para tornar possível esta liberdade, temos que insistir no pré-requisito da abundância, que só pode ser alcançada através do uso das técnicas industriais, da agricultura moderna e do progresso científico. Mas a indústria moderna, assim como a agricultura moderna, tem os seus próprios limites e o seu próprio ritmo. O ritmo humano não impõe a sua velocidade á máquina; é o ritmo da máquina que determina o progresso humano.

Com a Revolução, a propriedade privada vai ser suprimida, mas a fábrica vai continuar a existir, a seguir os mesmos métodos de produção e a desenvolver-se da mesma forma. O que vai mudar vai ser a distribuição da produção que, ao invés de obedecer ás leis do juro e do lucro, vai satisfazer as necessidades de todos, numa base igualitária. A fábrica não é um organismo isolado, nem pode funcionar de forma independente. Ela faz parte de uma rede complicada, espalhando-se através do lugar, da região e da nação, ultrapassando todas as fronteiras.

O autor deste texto conheceu o isolamento económico na sua aldeia natal, situada num pequeno vale escondido, isolada de todo o contacto com a civilização até há apenas trinta anos. Tosquiava-se a lã das ovelhas, faziam-se sapatos com a lã; o trigo era cultivado e transformado em pão; as ervas das colinas circundantes tornavam desnecessário que se trouxessem medicamentos do exterior. Nós sabíamos que, para além do nosso vale, havia uma espécie de poder superior, que enviava cobradores de impostos e policias. Esta pequena aldeia, até há apenas trinta ou quarenta anos atrás, vivia de forma autónoma. Mas agora tudo está diferente, e ainda bem. As pessoas da aldeia usam roupas tecidas em Barcelona ou em Lancashire, feitas com lã argentina ou australiana, ou com algodão indiano ou americano. Elas têm rádios feitos na Inglaterra ou na França, elas bebem café brasileiro. Seria desejável um regresso ao isolamento económico? Ninguém o havia de querer; toda a gente quer desfrutar dos benefícios trazidos pela inteligência e pelo trabalho. É simples de ver: mil laços diferentes unem o mais insignificante lugar á economia nacional e mundial.

Não nos interessa como os trabalhadores, empregados e técnicos de uma fábrica vão fazer para se organizarem a si mesmos. Isso é lá com eles. Mas o fundamental é que, desde o princípio da Revolução, haja uma coesão apropriada entre todas as forças produtivas e distributivas. Isto significa que os produtores de cada localidade devem chegar a um entendimento com todas as outras localidades da província e do país e que deve haver um entendimento internacional directo entre os trabalhadores do mundo. Esta coesão é obrigatória e indispensável para o próprio funcionamento de todos os elementos da produção. A interdependência entre a fábrica e a central eléctrica, as fundições de Bilbau e a produção mineira, os caminhos-de-ferro e a agricultura, a construção e mil e um ofícios e actividades, tudo pressiona para a máxima coordenação possível da produção e da distribuição.

Acreditamos que exista alguma confusão nos ciclos libertários entre a convivialidade social, as afinidades de grupo e o funcionamento da economia. No passado, os poetas imaginaram visões de Arcádias felizes ou de comunas livres mas, para o futuro, as condições parecem ser bastante diferentes. Na fábrica, não vamos estar á espera de encontrar a afinidade da amizade, mas sim a afinidade do trabalho. Não é afinidade de carácter, excepto se for em termos de capacidade profissional e de qualidade do trabalho, que constitui a base da convivialidade da fábrica. A comuna livre é o resultado lógico do conceito de afinidade de grupo, mas não existem comunas desse género na economia, porque isso ia pressupor a independência económica e não existem comunas economicamente independentes.

Uma coisa é a comuna livre do ponto de vista político ou social e outra coisa muito diferente é a comuna livre do ponto de vista político ou económico. Na última, o nosso ideal é a comuna federada, integrada no mecanismo económico total do país ou dos países em Revolução. O comunismo económico é igualmente um resquício dos velhos conceitos jurídicos de propriedade comunal e nós, que advogamos a supressão de toda a propriedade privada, não queremos que, no lugar do antigo proprietário individual, apareça um novo proprietário com muitas cabeças. O nosso trabalho na terra ou na fábrica não faz de nós proprietários individuais ou colectivos da terra ou da fábrica, mas faz de nós contribuidores para o bem-estar comum. Tudo pertence a todos e o produto do trabalho de todos deve ser distribuído de forma tão equitativa quanto o próprio trabalho humano. Não podemos concretizar a nossa Revolução económica a uma escala local; uma economia que tenha por base o isolamento só consegue gerar privações e escassez de produtos. A economia é hoje em dia um vasto organismo e todo o isolamento só se pode mostrar prejudicial. Seria preciso suprimir o trabalho especializado para se poder fazer das comunas livres um ideal económico. Isso é, escusado será dizê-lo, impossível. Temos que trabalhar segundo um critério social, tendo por base os interesses de todo o país e, se possível, de todo o mundo.

A REVOLUÇÃO LIBERTÁRIA

Já dissemos que o anarquismo é a expressão da nossa aspiração por uma vida livre. Afirmámos que o anarquismo pode existir tanto na penúria quanto na abundância, sob uma forma de organização económica ou outra. Vamos agora aprofundar outros aspectos do pensamento libertário.

O que nos distingue principalmente enquanto indivíduos e enquanto movimento é a nossa posição sobre o que diz respeito ao Princípio da Autoridade. A nossa afirmação constante do respeito pela liberdade de todos e de cada um. Com a excepção dos métodos empregues, as nossas soluções no campo económico coincidem com as de outros movimentos sociais. No campo político, nós substituímos o princípio da autoridade e a sua máxima encarnação, o Estado e os seus instrumentos repressivos, pelo livre entendimento dos diferentes grupos sociais. Neste aspecto, nós, os anarquistas, estamos mais isolados e, mesmo durante Revolução vitoriosa, ainda ficaríamos isolados. Acreditamos que existam muitas pessoas que só não estão do nosso lado devido á ignorância, mas a maior parte das pessoas foi influenciada de forma negativa por uma educação autoritária. Alem disso, elas não entendem as nossas aspirações, por não terem a mesma sensibilidade que nós e por não terem desenvolvido de forma suficiente o seu sentido de liberdade, de independência e de justiça.

A Revolução pode fazer despertar em muitos as forças da libertação, mantidas num estado de letargia pela rotina diária e por um ambiente hostil. Mas ela não vai ser capaz de, como se por meio de artes mágicas, transformar a minoria anarquista numa maioria social absoluta. E mesmo que, no futuro, nos tenhamos tornado numa maioria, ainda há-de continuar a existir uma minoria dissidente que há-de suspeitar e de se opor ás nossas inovações, temendo a nossa audácia experimental.

Contudo, se agora não renunciamos á violência como forma de combater as forças que pretendem escravizar-nos, na nova ordem económica e social de coisas só podemos seguir a linha da persuasão e da experiência prática. Podemos opor-nos de forma violenta àqueles que tentarem subjugar-nos em nome dos seus interesses ou posições, mas não podemos recorrer á força contra aqueles que não partilham dos nossos pontos de vista e que não querem viver da mesma forma que nós. Neste aspecto, o nosso respeito pela liberdade deve abranger a liberdade dos nossos adversários viverem a sua própria vida, sempre com a condição de que eles não se comportem de forma agressiva e não neguem a liberdade dos outros.

Se, durante a Revolução Social, apesar de todos os obstáculos, conseguíssemos tornarmo-nos numa maioria, o trabalho prático de reconstrução económica ficaria muitíssimo facilitado, porque íamos poder contar de imediato com a boa vontade e o apoio das massas. Mas, mesmo assim, íamos ter que respeitar as experiências das diferentes minorias e chegar a um entendimento com elas no que diz respeito á troca de produtos e serviços. Certamente que, enquanto minoria histórica, nós, os anarquistas, também temos o direito de reivindicar esta liberdade de experimentação e defendê-la com toda a nossa força contra todo o partido ou classe que tente esmagá-la. Toda a solução totalitária assume contornos fascizantes, mesmo que seja defendida em nome do proletariado e da Revolução. O novo modo de vida é apenas uma hipótese social, que só pode ser avaliada através da experiência prática.

Estamos convencidos de que a justiça e a verdade estão do nosso lado, apesar de, ao mesmo tempo, reconhecermos os direitos das outras tendências sociais, os seus métodos e as suas aspirações. Acreditamos que as nossas ideias estão mais perto da verdade, mas não nos consideramos infalíveis, nem negamos a sinceridade e a boa fé das outras doutrinas. Qual será o método capaz de demonstrar a validade das nossas ou outras hipóteses sociais? O nosso, ou o de um outro qualquer programa revolucionário?

Na Idade Média, as pessoas inclinavam-se perante a palavra de Deus. Mais tarde, os homens haviam de resolver as suas diferenças por meio de um duelo. Quem esmagasse a cabeça do outro era considerado o vencedor, com a justiça e a verdade do seu lado. Será que nós queremos que, hoje em dia, a palavra de Deus seja substituída unicamente pela força enquanto meio de provar qual das diferentes tendências revolucionárias tem mais razão? Nós reflectimos sobre o anarquismo na Rússia: será que o facto de ele ter sido praticamente exterminado pela nova ditadura provou que ele não tinha qualquer direito de existir? Se nós repudiamos este procedimento enquanto forma de provar a superioridade de um determinado partido revolucionário, não é só porque o fizeram na Rússia; nós também repudiamos qualquer tentativa da nossa parte de o pôr em pratica em Espanha. Nós queremos que, em primeiro lugar, se reconheça o direito á livre experimentação por parte de todas as tendências sociais na nossa Revolução; por isso, ela não vai ser nenhuma nova tirania, mas sim a entrada no reino da liberdade e do bem-estar, no qual todas as forças vão poder ser manifestadas, toda as iniciativas experimentadas e todos os avanços postos em pratica. A violência pode ser justificada quando se trata de destruir de um velho mundo de violências, mas ela vai tornar-se contra-revolucionária e anti-social se for empregue enquanto forma de reconstrução.

Nas Astúrias, durante a Revolução de Outubro, emergiram duas tendências bem definidas: nalgumas localidades foi proclamada a Republica Socialista, noutras, o Comunismo Libertário. Se a Revolução tivesse conhecido um desfecho diferente, quais teriam sido as consequências? Infelizmente, o respeito pela livre experimentação teria de depender da força que a nossa tendência tinha ao seu dispor para se opor ás pretensões de um regime totalitário. Os anarquistas não teriam colocado qualquer oposição ás inovações nos métodos de trabalho e distribuição que os socialistas realizaram em Oviedo, enquanto que em Gijon e La Felguera se pôs em prática o Comunismo Libertário. Talvez as tendências socialistas e comunistas, por não serem idênticas, tivessem desencadeado uma guerra civil no dia a seguir ao do derrube da burguesia e do Estado, para determinar se o futuro seria social-democrata, bolchevista, ou libertário; seria uma guerra entre irmãos, que teria aniquilado o espírito e as promessas da Revolução.

Não sabemos se os nossos amigos nas Astúrias teriam sido capazes de defender o seu direito á existência contra o totalitarismo socialista ou comunista. Talvez naquele lugar eles se fossem encontrar a si mesmos em minoria. Mas, no resto da Espanha, caso houvesse uma Revolução, nós teríamos uma maioria indiscutível, tal como se viu em Aragão, em Rioja e Navarra, na Andaluzia, na Catalunha e no Levante. Imaginem o desastre e a morte da Revolução que teria tido lugar se nós fossemos defender o mesmo critério totalitário mantido pelos socialistas e pelos bolchevistas.

No campo político, nós temos que renunciar, naturalmente, á hegemonia de um comité, de um partido, de uma determinada tendência; ou seja, temos que renunciar ao Estado enquanto instituição que exige obediência de todos com ou seu o seu consentimento. Sem esta recusa de um Estado que dite a lei para todos, não podemos ter uma verdadeira Revolução ou bem-estar social, porque manter o Estado é manter a maior fonte de exploração do trabalho humano.

Isto não implica que a nova ordem económica vá excluir a solidariedade, o apoio mútuo e a concórdia. Antes pelo contrário, onde o isolamento económico for impossível, a Gijon comunista libertária vai precisar da Oviedo socialista. Tal como acontece com a questão da organização económica, o mais importante é a existência de uma boa vontade recíproca entre as diferentes facções e de uma disposição para pactuar. Assumindo esta boa vontade, o entendimento virá de forma natural, apesar das diferenças politicas e sociais que possam separar os intervenientes. Desta forma, vai ser possível organizar uma magnífica rede de relações e intercâmbios á escala nacional, sem que se careça de um regime unitário que regule a produção e a distribuição numa base monopolizadora.

Durante mais de meio século, o marxismo produziu divisões no campo dos trabalhadores devido á sua defesa dogmática da ideia de um estado totalitário. Nós pretendemos a união de todos os trabalhadores; sem essa união, eles vão continuar a servir como carne para canhão ou bestas de carga em benefício das classes privilegiadas que detêm o poder. Mas nós queremos que esta união surja a partir dos interesses comuns de todos e que garanta a liberdade do indivíduo dentro do organismo colectivo. Existe uma base comum para o entendimento, que é o reconhecimento sincero das diferenças de carácter, de temperamento e de educação e a promessa solene de se chegar a um entendimento mútuo, baseado no respeito mútuo, baseado nas nossas aspirações comuns: a supressão do capitalismo e do estado totalitário, em direcção ao triunfo da Revolução.

A ESPANHA E A REVOLUÇÃO

Estamos a passar por uma crise, uma época de decomposição universal de valores, instituições e sistemas. Infelizmente, as pessoas não foram preparadas para uma desmoralização tão grande, quer em termos psicológicos, quer em termos materiais. É por isso que, cercadas pela miséria, elas não foram capazes de se desembaraçarem dos velhos fetiches. É por isso que elas caem de idolatria em idolatria, de uma forma de escravidão á seguinte, ao invés de juntarem as suas forças e de ganharem confiança em si mesmas e na sua capacidade de criarem uma vida melhor.


É deplorável o espectáculo apresentado por nações inteiras, curvando-se de joelhos, sujeitando-se e implorando por um chefe, um líder, ou então subordinando-se àqueles que prometem fortalecer as cadeias da escravidão. A Alemanha está satisfeita com o seu Führer, a Itália acredita no Duce, a Rússia confia em Estaline. O que pensam as minorias, na oposição, não conta. Acreditamos que isto não seja simplesmente o produto da violência, da opressão e da selvajaria; no nosso entender, esta situação é explicada pela servidão voluntária. As pessoas não têm nenhuma confiança em si mesmas e isso deve-se, não a uma qualquer falha que seja da sua responsabilidade, mas sim por causa de séculos e séculos de uma educação perversa. As sementes da escravatura mental deram fruto e os anarquistas foram os únicos a ser capazes de, contra a corrente, manter a sua incorruptível fé em si mesmos.

Jamais houve na história do mundo uma ocasião tão favorável para uma mudança de regime. As velhas instituições, os velhos preceitos políticos, económicos e sociais estão completamente decadentes. Só faz falta um ímpeto final para arrojar pelo precipício toda a decrepitude, para que as pessoas possam finalmente assumir a responsabilidade de escolher o seu próprio destino. Mas os anos passam e as classes privilegiadas reúnem-se á socapa, procurando soluções, aplicando panaceias e, apesar de seguirem de fiasco em fiasco, o jogo contínua, ás custas dos que trabalham e que sofrem. E o mais espantoso é que, em vez de vermos o campo revolucionário a fortalecer-se, o panorama mundial oferece-nos justamente o cenário oposto: vemos uma reacção fortalecida, que pretende restabelecer e fortalecer os velhos poderes.

A insegurança e o descontentamento estão generalizados. A burguesia e os magnatas da indústria, comercio e agricultura também estão muito infelizes. Eles vegetam nas altas esferas, sob a pressão de choques contínuos. O crash de 1229, em Nova Iorque, atirou milhares deles do conforto principesco para o abismo do desespero. A princípio, parecia ser apenas uma crise temporária, que só carecia de alguns pequenos reajustamentos, mas os anos passaram e agora vemos que não se trata apenas de uma crise, mas sim da completa bancarrota de todo o sistema capitalista. Precisamos de um novo sistema económico. Todos estão de acordo neste aspecto e, mesmo assim, ainda se procuram soluções baseadas no privilégio, excluindo do controlo da sua vida e do seu trabalho as massas produtoras.

O estado totalitário aparece como uma solução. A direcção da economia, tendo fracassado sob a alçada do capitalismo privado, ficará no futuro sob a égide do poder estatal. Isto é tudo o que a inteligência burguesa, secundada pelo marxismo, foi capaz de propor. Diz-se que um estado totalitário vai eliminar as contradições entre os grupos capitalistas rivais e transformar todo o aparelho económico de um país numa única força, obedecendo a uma única vontade.

Sem duvida que a coordenação económica é uma necessidade mas, quando obtida através da acção estatal, pior se torna a emenda que o soneto, porque essa coordenação é alcançada á custa de todos os valores, de todas as iniciativas e de todos os factores que não se originam no Estado.

Além disso, o Estado totalitário representa o expoente máximo do autoritarismo. Ele vai ter que fortalecer as suas instituições, manter um exército, um corpo policial e um sistema burocrático, o que aumenta enormemente o peso dos impostos. E isto por si só determina o seu fracasso. O estado moderno é insuportável não só devido á sua tirania, mas também por se tornar demasiado dispendioso e por os seus atributos essenciais serem um obstáculo para o desenvolvimento social. O estado totalitário aumenta em grande escala o parasitismo, como se pôde ver nos países onde o puseram em prática. Sob estas condições, não se consegue curar a crise de todo um sistema. Muito pelo contrário, o caos económico torna-se ainda pior. Abafar os gritos de dor e os protestos não é o mesmo que abafar a dor em si mesma, ou a vontade de protestar. Como complemento lógico do estado totalitário aparecem as doutrinas do nacionalismo, do racismo, enfim, de qualquer coisa que oblitere a personalidade humana perante a visão de uma deidade superior. E o nacionalismo é a guerra. E a guerra é a causa de novas calamidades, a precursora de novas formas de depravação do coração e do pensamento humano.

O estado moderno, tendo fracassado sob os seus paramentos liberais e facetas democráticas, só deixou como alternativa um estado totalitário, dotado de poder omnipotente no campo económico e sem quaisquer reservas ou escrúpulos no que toca á defesa da sua sobrevivência.

Temos que fazer uma escolha de uma vez por todas. De um lado, temos o Estado, que significa guerra, que significa o desemprego e o esmagar dos produtores através de impostos pesados e da perseguição de toda a forma de pensamento livre. Do outro lado, temos a socialização da economia, o entendimento directo entre os produtores, de forma a regular a produção e a distribuição segundo as necessidades de cada um, sem qualquer parasitismo político, económico, ou social. Queremos salientar outra vez, para aqueles que ainda alimentem ilusões sobre um “governo proletário”, que o capitalismo de estado não suprime o capitalismo, acabando por estimulá-lo temporariamente; o “governo proletário” é um governo como os outros, só que pior, porque acorrenta espiritualmente os trabalhadores ás suas instituições, fazendo com que eles esperem do Governo aquilo que ele é completamente incapaz de fazer.

Mas há outra solução, a nossa solução, a da socialização e do entendimento entre todos os produtores e consumidores enquanto tal, com base na sua posse dos produtos do seu trabalho. As ideias politicas, religiosas e sociais de cada um não precisam de entrar neste acordo. Que interessa se as pessoas acreditam em Deus ou no diabo, se elas são crentes ou ateias, católicas ou protestantes, conservadoras ou socialistas? Só nos interessa concretizar as aspirações daqueles que trabalham, que se baseiam na posse integral do fruto do seu trabalho, o que só é possível numa economia socializada. As organizações proletárias espanholas já possuem as bases necessárias para levar a cabo uma coordenação económica imediata, baseada numa rede de organizações sindicais e cooperativas. Nem o capitalismo nem o estado estão dotados de uma base económica de acção tão completa quanto a das organizações dos trabalhadores. Para elas, vai ser relativamente fácil – mesmo agora – tomar conta da produção e da distribuição, tendo por base o princípio da satisfação das necessidades de todos. Isto ia ser benéfico inclusive para os parasitas que, quer por nascimento, educação ou condição inerente, se encontram á margem do trabalho produtivo, exercendo uma função que talvez sintam secretamente como repugnante, a de serem simples cães de guarda da riqueza das classes privilegiadas.

A Revolução Russa de 1917 despertou milhões e milhões de escravos para a consciência de uma vida nova. A queda do Czar e o empenho do proletariado na escolha do seu próprio destino foram saudados com uma alegria indescritível. A Rússia tornou-se um símbolo para todas as forças proletárias revolucionárias. Nós não estivemos entre os últimos mas sim entre os primeiros a porem-se do lado da Rússia quando ela era a grande esperança dos oprimidos.

As políticas do estado mataram o espírito socialista e, em poucos anos, aquele grande país deixou de ser um símbolo da liberdade para se tornar no ideal dos burocratas. Hoje em dia, ele é apenas mais uma potência imperialista, a preparar-se para a guerra tal como as outras o fazem e tendo tanto a ver com o socialismo e os ideais do proletariado como qualquer outro Estado. Esta evolução pode chocar e surpreender muita gente, mas não os anarquistas, que sempre frisaram este perigo através de uma crítica constante.

A história confirma novamente a exactidão das nossas previsões. As políticas do Estado e o socialismo harmonizam-se tanto quanto a água e o fogo. Se um triunfar, o outro terá que sucumbir e vice-versa. Só é possível criar o socialismo na medida em que o estado seja destruído e sejam criadas instituições populares que tomem directamente controlo da produção e da distribuição. Com o desaparecimento do símbolo do Oriente (o mito da Rússia, tal como Berkman o definiu), nasceu para os escravos revoltosos do mundo um novo símbolo, o símbolo da Espanha. Agora, a Espanha representa o ultimo portador do espírito da Liberdade, a ultima esperança de renascimento nesta idade das trevas.

Nós não somos patriotas, nós não glorificamos o nacionalismo; a nossa Pátria não existe numa terra onde existem apenas miséria e escravidão no lugar da justiça. No conjunto das nações capitalistas, o nosso país só pode representar um papel insignificante, uma semi-colónia na qual apenas uma minoria de ricos e privilegiados pode gozar e apreciar a vida ás custas do suor e das privações da grande massa de trabalhadores e camponeses espanhóis. No sistema capitalista, a Espanha só pode representar um papel de extrema subordinação, devido ao seu atraso industrial e á ignorância das suas massas laboriosas. Se o panorama espanhol vier a ser alterado sob o sistema capitalista, isso será devido ao trabalho e á iniciativa do capital estrangeiro, por causa da mentalidade inferior e do insignificante espírito empreendedor dos capitalistas nacionais, o que implica forçosamente uma maior dependência do país em relação ao estrangeiro.

Mas, se o povo espanhol romper as suas cadeias e iniciar a construção de uma nova ordem baseada no trabalho e na solidariedade, a Espanha irá passar do mais baixo escalão das nações modernas á vanguarda da humanidade progressiva, servindo de exemplo e de estimulo, como um grande símbolo vivo do futuro de toda a humanidade.

Já vimos como os movimentos progressistas foram esmagados sob o peso das hordas regressivas noutros países. Para salvar a Espanha de um tal destino, estamos prontos a cometer o maior dos sacrifícios. O nosso objectivo é a construção de um sistema libertário sem leis e sem autoridades, que seriam substituídas pela solidariedade e pela livre federação baseada na comunidade de interesses. Nós somos capazes de viver segundo os nossos princípios e sabemos como havemos de o fazer e também sabemos que mesmo aqueles que foram mais envenenados pelo vírus do autoritarismo se vão adaptar lindamente ao regime de vida, trabalho e apoio mutuo que nós defendemos. Nós acalentamos a firme convicção de que a humanidade só vai ser feliz quando for livre, quando tiver exterminado das suas instituições, actividades e ideias o domínio e a exploração do homem pelo homem.

A situação é grave. O inimigo barricou-se em fortalezas e ameaça o extermínio total de todos os movimentos progressistas. Podemos ser os primeiros a cair, mas não vamos ser os últimos, tal como aconteceu na Itália, na Alemanha e noutros países. Tem-se falado em alianças defensivas, em frentes populares. Nós favorecemos e temos trabalhado sempre, até á exaustão, para a consolidação de todas as tendências progressistas, de forma a opormo-nos ao iminente retrocesso em direcção ao fascismo. Nós avisámos os partidos liberais e de esquerda de que qualquer tentativa da sua parte para esmagar a CNT vai acabar necessariamente por ter más consequências para eles próprios. A nossa experiência mostrou-nos que mudar de direcção e de ideologia sem eliminar o Estado só vai agravar os males morais, sociais e económicos. É por isso que não podemos participar em alianças que se preocupam sobretudo com a divisão dos espólios no novo Estado, ou que tenham o objectivo limitado de se opor a uma certa forma de fascismo, a um tipo especifico de tirania, ou a uma forma especifica de capitalismo. Nós repetimos: estamos prontos para sacrificar muitos de nós, mas só por uma aliança nascida no coração do proletariado e nos núcleos da produção. Só por uma frente unida dos produtores com vista a assegurar a todos os que trabalham o domínio total sobre a sua produção. Esta união só pode ser criada com base na liberdade, no entendimento e no respeito mutuo, tanto para o presente quanto para o futuro. Isto não é possível se tivermos por base a premissa da conquista do Estado, que teria necessariamente de colocar a força da lei ao dispor de ambições pessoais, tornando-se, desta forma, no inimigo natural do povo.

Negar a natureza reaccionária, anti-social e anti proletária do estado é o equivalente ao suicídio. O Estado é tão capaz de confraternizar com a liberdade quanto a água com o fogo; nem pode ele de modo algum pôr em prática o ideal fundamental de que “quem não trabalha não come”. Seria tão fácil para os trabalhadores entenderem-se, se não fosse pela intromissão de oportunistas ambiciosos á procura de poder nos partidos políticos!

O povo espanhol possui uma imensa capacidade criativa. A Espanha tem tradições de vida livre, recursos materiais e poder muscular e mental. Em Espanha, ainda está tudo para ser feito em termos de indústria, agricultura, silvicultura, meios de comunicação e cultura. O trabalho que ainda tem que ser feito é imenso em todas as áreas. Uma Revolução não pode fazer milagres. Mas pode libertar as energias paralisadas pelo presente sistema social e dirigir todos os esforços para funções socialmente úteis. Em poucos anos, a Espanha seria capaz de vestir, abrigar e alimentar toda a sua população de uma forma satisfatória. Ao mesmo tempo, a Espanha tornar-se-ia numa autoridade moral de primeira ordem e a sua voz seria escutada em todo o mundo. Não seria preciso esperar muito para que o seu exemplo fosse emulado noutros países, até que o fátuo edifício do autoritarismo caísse por terra, juntamente com toda a sua pestilência e o seu pesado fardo humano. E, enquanto que a Rússia prepara os seus milhões de soldados para lutar ao lado da França na próxima guerra imperialista, a Espanha vai ser finalmente capaz de erguer a sua voz e proclamar a paz no mundo, em resposta á louca corrida dos estados modernos em direcção ao abismo e ao desastre.
Esta pequena península pode tornar-se no berço de uma nova era e também pode tornar-se na tumba de uma grande esperança. O futuro, não muito distante, vai pronunciar a palavra final.