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Há
Que Acabar Com Tudo Isto!
John
Zerzan
A
actual realidade está formada, como nunca esteve, de imensas
penas e de cinismo: uma grande lágrima no coração
da humanidade. O quotidiano vê aumentar a sua dose de horrores
sem cessar acompanhada por um apocalipse rompante do meio ambiente.
A alienação dos espíritos e os poluentes
químicos disputam o predomínio na dialéctica
da morte que rege a vida de uma sociedade dividida e gangrenada
pela tecnologia. O cancro, desconhecido antes da civilização,
transformou-se numa epidemia numa sociedade cada vez mais estéril
e literalmente tumorosa.
Repentinamente, todos consumiremos drogas; sejam administradas
sob regras ou vendidas sob contrabando, isto apenas é uma
distinção formal. A terapia dos transtornos de cuidados
oferece outro exemplo da tendência coercitiva da medicamentação
da angústia e a agitação generalizada, que
gera uma realidade cada vez mais frustrante. A ordem dominante
fará, evidentemente, todo o possível por negar a
realidade social. A sua tecnopsiquiatria considera o sofrimento
humano como de natureza biológica e de origem genética.
Novas patologias, resistentes à medicina industrial estendem-se
à escala planetária da mesma forma que o fundamentalismo
religioso - sintoma de frustração e de profunda
miséria psíquica. E à espiritualidade New
Age (a filosofia para uso "dos caranguejos", segundo
Adorno), assim como as inumeráveis terapias paralelas deleitam-se
em vãs ilusões. Pretender que pode-se estar íntegro,
esclarecido e em paz no seio da loucura actual é, de facto,
aceitar esta loucura.
O fosso entre ricos e pobres alarga-se, particularmente neste
país onde os sem-abrigo e os presos contam-se por milhões.
A cólera aumenta e as mentiras da propaganda que fundamentam
a sua sobrevivência não encontram já a mesma
credibilidade. Este mundo, onde reina a falsidade, encontra apenas
a adesão que merece: a desconfiança em direcção
às instituições é quase absoluta.
Mas a vida social parece congelada, e o sofrimento dos jovens
é sem dúvida o mais profundo. A taxa de homicídios
entre adolescentes de 15 a 19 anos duplicou entre 1985 e 1991.
O suicídio transformou-se em reacção de procura
de cada vez mais adolescentes, que não encontram forças
para alcançar a idade adulta num inferno como este.
A nossa época pós-moderna encontra a sua expressão
essencial no consumo e na tecnologia, que dão aos mass
media a sua força estupefaciente. Imagens e slogans impactantes
e fáceis de digerir impedem de ver o espectáculo
terrorífico da dominação que repousa essencialmente
sobre a simplicidade das representações. Inclusive
os enganos mais flagrantes da sociedade podem servir para esta
empresa de hipnose colectiva, como é o caso da violência,
fonte de infinitas diversões. Seduzem-nos as representações
de comportamentos ameaçantes, pois o aborrecimento é
uma tortura maior que o espanto.
A natureza, ou o que resta dela, reprova-nos amarguradamente o
modo em que a existência actual está pervertida,
frígida e adulterada. A morte do mundo natural e a penetração
da tecnologia em todas as esferas da vida desenvolve-se a um ritmo
cada vez mais rápido. A multidão informaticamente
enlaçada, os marginais tecnóides, os ciber-não-importa-quê,
a realidade virtual, a inteligência artificial... Até
chegar à vida artificial, última ciência pós-moderna.
Entretanto, a nossa Era da Computadora "pós-industrial",
tem com principal consequência a nossa transformação
acelerada num "apêndice da máquina", como
se dizia no século XIX. As estatísticas da administração
judicial indicam, todavia, que as empresas, cada vez mais informatizadas,
são o teatro de cerca de um milhão de delitos violentos
por ano, e que o número de patrões assassinados
duplicou nos 10 últimos anos.
O sistema, na sua atroz arrogância, espera que as suas vítimas
se conformem votando e reciclando os seus resíduos, fazendo-lhes
crer que tudo irá muito bem. O espectador é somente
suposto, não tem de saber nada e não merece nada.
A civilização, a tecnologia e as divisões
que dilaceram a sociedade, são componentes de um todo indissolúvel.
Uma carreira para a morte, fundamentalmente hostil às diferenças
qualitativas. A nossa resposta terá de ser qualitativa,
sem fazer caso dos eternos paliativos quantitativos que reforçam,
de facto, aquilo que queremos abolir.
Tradução
de Manuel Oliveira
John
Zerzam, de 57 anos de idade, nascido em Orégon, formado
em ciências políticas e história, teórico
do anarco-primitivismo americano, fundador da "cooperativa
de vivendas" de East Blair e de um vigoroso sindicato independente,
editor de "Anarchy" desde há 25 anos, é
caracterizado como grande inspirador das revoltas anti-globalizadoras
de Seattle e Praga.
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